Tempo severo: ciclone Kurumí e a atuação de uma zona de convergência

Condições extremas de tempo para o Brasil devido ao desenvolvimento de um ciclone de características subtropicais e à formação de uma zona de convergência. Muita chuva está prevista e o potencial para transtornos é elevado.

Tiago Robles Tiago Robles 22 Jan. 2020 - 13:51 UTC
Imagem de satélite da manhã do dia 22 mostra a presença de uma baixa pressão próximo a costa do ES e do sul da BA, que se intensificará nos próximos dias.

Uma região de baixa pressão, que se encontra próximo a costa do Brasil na altura do Espírito Santo e do sul da Bahia, ganha intensidade a partir da tarde desta quarta-feira (22) e se desloca para sudeste no oceano. Ao longo da quinta-feira (23), o sistema evolui para um ciclone com características subtropicais e, se confirmada a previsão, será chamado de Kurumí que significa “menino” em tupi-guarani.

A trajetória e a sua estrutura podem ser analisadas na figura acima através dos diagramas de fase do modelo GFS. O primeiro diagrama mostra o tipo de estrutura do ciclone e nele podemos notar que ao longo da sua trajetória, de A a Z, o sistema possui uma estrutura ligeiramente simétrica (symmetric) com um núcleo mais quente (warm core), sendo este último com pequeno desenvolvimento, mais raso, como pode ser verificado no segundo diagrama (shallow).

Como apresentado em dois artigos anteriores, “As diferenças entre os ciclones” e “Mas afinal, o que são ciclones subtropicais?”, a oceanógrafa Carolina Barnez Gramcianinov, com mestrado e doutorado em Meteorologia e especialista em ciclones, nos mostra que os ciclones subtropicais são sistemas híbridos que possuem características tanto tropicais e extratropicais e os modelos, de maneira geral, têm muita dificuldade em provê-los corretamente.

Impactos do Kumirí: chuvas torrenciais e rajadas de vento

Na quinta-feira (23), a região de formação do ciclone ocorre em alto-mar próximo a costa da Região Sudeste entre os estado do Espírito Santo e do Rio de Janeiro, o que traz impactos ao longo da costa desde Santa Catarina até a Bahia, com mar bastante agitado em toda essa faixa até a manhã de sábado (25), quando o sistema se encontra mais afastado no oceano.

A combinação do ciclone subtropical, com a atuação dos jatos de baixos níveis (850 hpa) e do jato subtropical em níveis mais elevados (250 hpa), somados com o deslocamento da Alta da Bolívia, favorece a formação de uma zona de convergência que poderá corresponder à primeira ZCAS de 2020. Essa soma de elementos de agora está sendo favorecida por uma tendência negativa da Oscilação Antártica (AAO) e de uma fase convectiva da Oscilação de Madden-Julian (MJO), que foi prevista anteriormente em “Como será a segunda quinzena de Janeiro de 2020?”.

Já a partir da tarde desta quarta-feira (22), chuvas de moderada a forte intensidade atingem praticamente todo o Centro-Norte do país, com potencial para alagamentos, inundações e enxurradas. Destaque para Minas Gerais, Espírito Santo e sul da Bahia, onde são esperados os maiores volumes. Na Região Sul, a presença de um cavado, também favorece o tempo instável e a ocorrência de chuvas moderadas, no entanto, devido ao acréscimo da circulação dos ventos, a faixa leste que vai do norte do Rio Grande do Sul até o norte de Santa Catarina, traz alerta para volumes elevados e risco de transtornos a partir do meio da tarde.

Para os próximos 3 dias, as chuvas não dão trégua e os volumes previstos são os maiores desta estação chuvosa. Há previsão de acumulados de 200 a 300 mm para Minas Gerais, Espírito Santo, Goiás e norte dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Volumes acima dos 100 mm podem causar problemas no leste da Região Sul, norte do Mato Grosso do Sul, leste do Mato Grosso e no Tocantins. Transtornos com fortes rajadas de vento superiores a 60 km/h podem ocorrer nos territórios carioca, capixaba, mineiro, sul baiano e do leste catarinense.

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