O aumento do nível do mar será pior do que prevíamos

Segundo um novo trabalho científico, o aumento do nível médio do mar poderá ser maior do que o estimado até agora. Dentro de 100 anos, esse aumento resultará em um fluxo migratório de quase 200 milhões de pessoas no mundo e poderá trazer sérios problemas geopolíticos.

Carolina Barnez Carolina Barnez 23 Maio 2019 - 15:02 UTC
Segundo especialistas, o derretimento das plataformas de gelo está sendo subestimado pelos modelos climáticos. Créditos: EcoWatch.com

O aumento do nível do mar sempre foi motivo de muita discussão no meio científico. Um estudo publicado na PNAS sugere que os relatórios anteriores do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) subestimaram o quanto as plataformas de gelo irão contribuir para o aumento do nível do mar. Os autores alertam que os impactos desse aumento resultarão em problemas geopolíticos para as gerações futuras.

A grande discussão sobre o aumento do nível do mar está nas incertezas dos modelos em relação a representação dos processos associados ao gelo marinho. Isso porque muito desses processos ainda não são bem conhecidos e por tanto, não adicionados aos modelos. No entanto, essas condições são essenciais para sabermos a velocidade na qual o gelo pode responder às mudanças climáticas, incluindo o quão rápido pode ser o degelo.

Esse problema faz as simulações numéricas de projeção do clima terem uma dificuldade enorme em prever como as plataformas de gelo irão responder às mudanças climáticas no futuro. Com o avanço do monitoramento por satélite, esperava-se que o aumento do conhecimento reduzisse as incertezas. Temos por exemplo, as recentes descobertas de canais subterrâneos na Antártica, que podem acelerar o processo de degelo. Porém, o que o artigo mostra é que na realidade essas descobertas revelam um sistema cada vez mais complexo que acaba aumentando as incertezas do modelo.

O trabalho foi produzido por pesquisadores da Inglaterra e Estados Unidos que reuniram cerca de 22 cientistas especialistas na área para discutir e "julgar" as incertezas das projeções climáticas de cada modelo numérico usado no IPCC. Segundo eles, se o derretimento das plataformas de gelo for combinado a outros fatores que influenciam o nível médio do mar global - como o derretimento dos glaciais e a expansão da água do mar devido ao aumento de sua temperatura (expansão térmica) - o aumento pode exceder mais que um metro até 2100.

Para um cenário de mudanças climáticas contínuo, seguindo a trajetória atual da humanidade em relação ao crescimento econômico e populacional, teremos o aumento de 5ºC na temperatura média da superfície da Terra. Nessas condições, a melhor estimativa obtida pelos especialistas é de 51 cm de aumento devido ao derretimento das plataformas até 2100. No entanto existe uma possibilidade (5%) de que esse aumento seja de 2 metros, o que levaria à necessidade de deslocamento de 200 milhões de pessoas. Alguns locais se tornarão inabitáveis por ficarem completamente submersos ou por sofrerem inundaçoes em uma maior frequência devido ao aumento do nível do mar.

Os autores pontuam que apesar da migração causada pelo aumento do nível do mar ocorrer distribuída em um intervalo de quase 100 anos, ela colocará em risco a existência de nações e resultará em conflitos por recursos e espaço. Jonathan Bamber e Michael Oppenheimer, autores do artigo, deixam a mensagem final de que "ainda há tempo para mudar o curso, mas não muito, e quanto mais demoramos mas fica difícil fazê-lo, maior se torna a montanha que teremos que subir" [em texto no The Conversation.com] .

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