Buraco sob a Antártica pode acelerar seu derretimento

Cientista descobriram a existência de uma cavidade com 2/3 do tamanho de Manhattan (EUA) embaixo do Glacial Thwaites. O crescimento deste "buraco" pode contribuir de forma decisiva para o colapso de Thwaites, trazendo grande impacto no nível médio do mar no futuro.

Carolina Barnez Carolina Barnez 07 Fev. 2019 - 04:44 UTC
A cavidade foi encontrada embaixo do glacial Thwaites, um dos maiores do setor Oeste da Antártica. Crétidos: Credits: NASA/OIB/Jeremy Harbeck.

Há algum tempo a comunidade científica aumentou a atenção para a Antártica, onde a perda de massa de gelo por derretimento tem aumentado muito nas últimas décadas. Agora, uma nova descoberta nos traz informações ainda mais alarmantes: o crescimento de uma enorme cavidade embaixo de um dos glaciais pode agravar ainda mais a situação de derretimento no continente.

Um grupo de cientistas monitorou um dos maiores glaciais no setor oeste da Antártica, chamado Thwaites. Medidas de velocidade, espessura e extensão do gelo marinho foram inferidas por um conjunto de satélites de 1992 a 2017. Os resultados, publicados na Science Advances, revelaram uma cavidade com aproximadamente 40 km² de área e 300 m de altura entre o fundo oceânico a camada de gelo acima.

Segundo os autores, a taxa de retração (diminuição) do glacial é controlada pelo relevo do fundo oceânico, espessura do gelo e derretimento causado pela influência da corrente circumpolar antártica profunda - sendo o último um dos fatores mais importantes. Em alguns pontos da plataforma, o formato do relevo marinho contribui para o maior acesso da corrente marinha e consequente formação de cavidades e canais abaixo do gelo. Nesse locais a taxa de derretimento pode ser até 3 vezes mais rápida do que no restante da plataforma, pois quanto mais cavernas e túneis submersos, maior será a interação da corrente marinha com o gelo, e mais rápido será o derretimento.

Derretimento maior do que o previsto

Essa nova descoberta coloca em xeque os modelos usados para estimar a perda de gelo de Antártica. A maior parte dos modelos numéricos usados para a projeção das mudanças climáticas incluem apenas cavidade fixas, não sendo aptos a representar a dinâmica de crescimento dessas estruturas. Isso pode significar que a taxa de derretimento estimadas pelos modelos atuais estão abaixo das taxas reais.

Esquema dos principais processos responsáveis pela retração dos glaciais e perda de massa de gelo..

O glacial Thwaites tem atualmente o tamanho do estado da Flórida (EUA), cerca de 170 mil km², e sua taxa de derretimento hoje é responsável por 4% do aumento do nível do mar no globo. Seu total derretimento resultaria no aumento de 65 cm no nível médio do mar [NASA.gov]. Além disso, este glacial "segura" os glaciais vizinhos e seu colapso significa a exposição de uma grande parcela de gelo ao derretimento.

Apesar de seu difícil acesso, uma pesquisa de campo de 5 anos está sendo implementada para um melhor entendimento de suas características e processos no glacial Thwaites. Esta iniciativa é uma colaboração internacional encabeçada pelo Conselho Nacional de Pesquisa Britânico e a Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

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