Por que o Índico está gerando ciclones tropicais tão devastadores?

A temporada de ciclones tropicais do Oceano Índico foi muito intensa nesse ano. Uma temperatura de superfície do mar excepcionalmente elevada e a contribuição de modos de variabilidade climática tiveram papel importantes nesses eventos catastróficos.

Carolina Barnez Carolina Barnez 13 Jun. 2019 - 11:50 UTC
Idai, Kenneth e Fani marcaram a temporada de ciclones tropicais no Oceano Índico. Créditos: EPA/Emidio Jozine/TheConversation

O Oceano Índico teve uma temporada de ciclones tropicais marcante nesse ano. Idai, Kenneth e Fani foram sistemas muito intensos e peculiares, cada uma sua maneira. A temperatura de superfície do mar excepcionalmente elevada teve grande papel nesses acontecimentos, mas outros modos de variabilidade climática também tiveram sua influência.

Em Março, o Ciclone Idai atingiu a costa de Moçambique, causando grande destruição no país. Com 1000 mortes estimadas, Idai é o ciclone tropical mais severos a atingir o país e o mais mortal até então. Antes de Idai, o ciclone Eline (2000) estava no topo da lista, como mais devastador.

Apenas 6 semanas depois, o ranking foi novamente desafiado pelo ciclone tropical Kenneth. Kenneth atingiu Moçambique, que ainda lutava pela recuperação após Idai. Um sistema como Kenneth não era esperado, pois além de ocorrer bem no fim da temporada de ciclones (Janeiro a Março), não é comum que dois ciclones tropicais severos ocorram no Canal de Moçambique na mesma temporada. Além disso, Kenneth entrou para história por ser o primeiro ciclone tropical a atingir a porção mais ao norte de Moçambique e a Tanzânia.

Finalmente, poucas semanas depois, o ciclone tropical Fani atingiu a costa leste da Índia. Segundo os registros históricos, não é comum um ciclones com tamanha intensidade no Oceano Índico Norte. Os primeiros ciclones com essa força começaram a ser reportados apenas por volta dos anos 1990.

O que está acontencendo com o Índico?

Estes ciclones tropicais extremamente intensos e não usuais estão associados com uma temperatura de superfície do mar acima da média no Oceano Índico. Temperaturas acima de 30ºC estão ocorrendo mais frequentemente e durante um maior período. Este fato está certamente conectado com o aumento e prolongamento das ondas de calor oceânicas observado nas últimas décadas.

No entanto, especialistas acreditam que o aquecimento das águas no Índico nesta temporada de ciclones não foi apenas causado pelo aquecimento em escala global. Existe também influências de forçantes globais e regionais, como o El-Niño Oscilação Sul, o Dipolo do Oceano Índico e o Modo Anular Sul. Há algumas análises que mostram que esta temporada de ciclones, em especial, teve forte impacto da Oscilação Madden-Julian. Esta oscilação teria provido umidade e condições adequadas para a formação desses sistemas.

Estado de alerta

Ciclones tropicais de intensidade elevada são frequentemente reportados na costa dos EUA ao longo da história. No entanto, um possível aumento na ocorrência desses ciclones no Oceano Índico é um alarme, pois ao contrário dos EUA, países costeiro no Índico não estão tão bem equipados e preparados para lidar com os danos.

Apesar de se usar tradicionalmente a escala de vento Saffir-Simpson para classificar a intensidade de ciclones tropicais, o nível de destruição e danos é muito mais complexo, já que depende de outros fatores geográficos e até socioeconômicos. As inundações, por exemplo, dependem do quão baixo e plano é o terreno da região costeira atingida, da presença de rios e do tipo do solo (ou cobertura). Além disso, a densidade demográfica das cidades "alvo" e o nível socioeconômico - que refletem em saúde, saneamento e poder de resposta à catástrofe - também podem agravar os impactos dessas catástrofes naturais.

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