Até na Amazônia? Geográfos reconhecem que Brasil tem, sim, montanhas; entenda

Após anos de estudos, especialistas brasileiros redefinem critérios do relevo e confirmam a existência de montanhas no país, inclusive na Amazônia, com impactos para ciência, turismo e prevenção de desastres.

Vista a partir de ponto próximo ao topo do pico da Neblina, no Parque Nacional do Pico da Neblina, Amazonas. Crédito: Fabio Colombini / Reprodução Revista Pesquisa Fapesp
Vista a partir de ponto próximo ao topo do pico da Neblina, no Parque Nacional do Pico da Neblina, Amazonas. Crédito: Fabio Colombini / Reprodução Revista Pesquisa Fapesp

Depois de décadas de controvérsia, o Brasil passa a reconhecer oficialmente que possui montanhas em seu território, incluindo regiões da Amazônia. A conclusão é resultado de seis anos de estudos conduzidos por geógrafos e geólogos, com coordenação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O debate histórico girava em torno da definição do que caracteriza uma montanha. Apesar de o país abrigar picos com quase 3 mil metros de altitude, muitos especialistas consideravam que faltavam critérios claros para classificá-los como tal.

Com base em análises de campo, revisão de mapas e critérios internacionais, os pesquisadores chegaram a um consenso: o Brasil tem, sim, montanhas, distribuídas em pelo menos 14 estados, de Norte a Sul.

Novos critérios mudam classificação do relevo

A redefinição estabelece que montanhas são formas de relevo com pelo menos 300 metros de desnível em relação ao entorno, encostas íngremes e topos mais agudos. Esse novo enquadramento levou à reclassificação de diversas áreas antes consideradas planaltos ou outras formações.

Regiões tradicionais, como as serras do Mar, da Mantiqueira e do Espinhaço, já eram reconhecidas por suas elevações. No entanto, áreas urbanas e até regiões amazônicas passaram a integrar essa categoria após análises mais detalhadas.

Nem toda grande altitude, porém, define uma montanha. O monte Roraima, por exemplo, foi mantido como planalto devido ao topo plano. Da mesma forma, morros isolados e elevações urbanas não entram na nova classificação.

Impactos vão além da geografia

O reconhecimento das montanhas brasileiras tem implicações diretas em políticas públicas. Especialistas apontam que a nova classificação pode fortalecer ações de conservação ambiental e incentivar o turismo em regiões de grande valor paisagístico.

Maciço do Urucum, MS. Crédito: Ranimiro Lotufo Neto / Getty Images / Reprodução Revista Pesquisa Fapesp
Maciço do Urucum, MS. Crédito: Ranimiro Lotufo Neto / Getty Images / Reprodução Revista Pesquisa Fapesp

Além disso, a mudança reforça a necessidade de atenção aos riscos naturais. Áreas montanhosas são mais suscetíveis a deslizamentos de terra, especialmente quando há ocupação urbana desordenada ou desmatamento.

Tragédias recentes em regiões serranas do Sudeste evidenciam esse risco. Segundo pesquisadores, compreender melhor o relevo pode ajudar na prevenção e no planejamento urbano, reduzindo impactos de eventos extremos.

Amazônia revela montanhas pouco conhecidas

Um dos pontos mais surpreendentes do estudo é a confirmação de montanhas na Amazônia, muitas vezes ocultas pela densa vegetação. Nessas regiões, a identificação é mais complexa, exigindo expedições científicas e tecnologias avançadas.

Pesquisadores relatam que trabalhar nesses ambientes é um desafio físico e logístico. As áreas são de difícil acesso, com clima rigoroso e condições extremas, o que torna cada descoberta ainda mais relevante.

Essas montanhas abrigam ecossistemas únicos, com espécies raras e adaptações específicas ao ambiente. Algumas plantas encontradas nesses locais são remanescentes de floras antigas, já extintas em outras partes do planeta.

Revisão resgata conceitos históricos

A nova classificação também representa uma retomada de ideias antigas da geografia brasileira, que já reconheciam a existência de montanhas no país, mas haviam sido deixadas de lado ao longo do tempo.

Segundo os pesquisadores, o equívoco ocorreu porque se associava a formação de montanhas apenas a regiões de intensa atividade tectônica, como Andes e Himalaia. No Brasil, os processos são mais antigos e ligados à erosão e ao soerguimento da crosta terrestre.

Estudos indicam que, há centenas de milhões de anos, o território brasileiro abrigava cadeias montanhosas comparáveis às maiores do mundo atual, posteriormente desgastadas pelo tempo.

Novo mapa será divulgado pelo IBGE

O IBGE prepara a divulgação de um novo mapa de relevo que incluirá oficialmente as montanhas brasileiras. O material faz parte da atualização do Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo.

A iniciativa envolve dezenas de especialistas e diferentes instituições científicas. O objetivo é padronizar a terminologia e melhorar a compreensão do território nacional.

Com isso, o Brasil dá um passo importante na valorização de sua geografia, ampliando o conhecimento científico e abrindo caminho para novas políticas de preservação e uso sustentável das áreas montanhosas.

Referências da notícia

Portal Amazônia. Geógrafos reconhecem que o Brasil tem, sim, montanhas; inclusive na Amazônia. 2026

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