Parque de Monte Alegre guarda um dos registros mais antigos da ocupação humana na Amazônia

Pesquisas revelam ocupação humana há 12 mil anos mostram que diversidade e manejo sustentável garantiram garantiram populações densas na Amazônia.

Pintura rupestre no paredão do sítio arqueológico Serra da Lua, que apresenta 41 painéis, no município de Monte Alegre, noroeste do Pará. Crédito: Maurício Paiva
Pintura rupestre no paredão do sítio arqueológico Serra da Lua, que apresenta 41 painéis, no município de Monte Alegre, noroeste do Pará. Crédito: Maurício Paiva

Estudos arqueológicos realizados na região de Monte Alegre, no noroeste do Pará, estão reformulando a compreensão sobre a presença humana na Amazônia. Evidências acumuladas nas últimas décadas indicam que grandes populações floresceram na floresta por milênios, desenvolvendo cultura complexa, redes de troca e tecnologia, sem destruir o ambiente ao redor.

A história dessas descobertas remonta a agosto de 1849, quando o naturalista inglês Alfred Russel Wallace, coautor da teoria da evolução com Charles Darwin, percorreu o Baixo Amazonas. À margem esquerda do rio, encontrou uma paisagem incomum, com campos de cerrado, várzeas e serras recortadas por cavernas, contrastando com a floresta densa predominante.

Ao escalar a serra do Ererê, Wallace chegou à Pedra do Pilão, onde observou grandes círculos concêntricos e figuras complexas pintadas na rocha. O registro foi publicado em 1853 no livro Viagens pelos Rios Amazonas e Negro, despertando interesse científico que atravessaria gerações.

Das primeiras datações às novas interpretações

Mais de um século depois, em 1995, a arqueóloga norte-americana Anna Roosevelt iniciou escavações na caverna Pedra Pintada, na serra do Paituna. A datação por radiocarbono indicou que as pinturas tinham 11,2 mil anos, colocando Monte Alegre entre os sítios mais antigos das Américas.

Pode-se classificar as pinturas rupestres de Monte Alegre em cinco temas: zoomorfos, biomorfos, antropomorfos, grafismos puros e representações de mãos. Crédito: Maurício Paiva
Pode-se classificar as pinturas rupestres de Monte Alegre em cinco temas: zoomorfos, biomorfos, antropomorfos, grafismos puros e representações de mãos. Crédito: Maurício Paiva

Apesar da relevância, o estudo inicial não diferenciou estilos e fases das pinturas, sugerindo uma única ocupação. A partir de 2012, uma equipe coordenada por Edithe Pereira, do Museu Paraense Emílio Goeldi, passou a contextualizar os vestígios, relacionando arte rupestre e cerâmica.

Em 2014, novas escavações revelaram pigmentos e instrumentos que indicam atividade artística há cerca de 12 mil anos. A análise comparativa mostrou semelhanças entre figuras rupestres e cerâmicas produzidas por povos ceramistas por volta de 1.000 a.C., evidenciando ocupação quase contínua até a chegada dos europeus.

Redes de troca e autonomia regional

A arqueóloga Cristiana Barreto aprofundou o estudo das cerâmicas encontradas atrás do Domo de Monte Alegre. Ao identificar fragmentos com bordas florais típicas da tradição Koriabo — difundida do Caribe às Guianas e ao norte amazônico —, revelou conexões amplas e inesperadas.

A descoberta alterou a visão predominante de que a ocupação se deu apenas ao longo do eixo leste-oeste do rio Amazonas. Monte Alegre mantinha relações com povos distantes e, ao que tudo indica, preservava autonomia frente ao poderoso cacicado de Santarém, estruturado de forma hierárquica.

Essas redes envolviam não apenas comércio, mas alianças sociais, rituais e intercâmbios culturais. O modelo organizacional identificado em Monte Alegre sugere sociedades horizontais, desafiando concepções tradicionais sobre centralização política na Amazônia pré-colonial.

Superando o “determinismo agrícola”

O arqueólogo Claide Moraes, da Universidade Federal do Oeste do Pará, critica o que chama de “determinismo agrícola”. Durante décadas, pesquisadores estrangeiros sustentaram que a floresta tropical limitaria o desenvolvimento humano, por não favorecer monoculturas típicas de outras regiões consideradas berços da agricultura.

Escavações recentes mostram o contrário. Vestígios de castanha com mais de 10 mil anos, além de restos de palmeiras, mandioca, peixes e quelônios, revelam dieta diversificada e manejo sofisticado dos recursos naturais. Estima-se que, por volta do ano 1000 d.C., cerca de 10 milhões de pessoas viviam na Amazônia.

Para os pesquisadores, o segredo do sucesso dessas populações estava na diversidade, não na monocultura. Monte Alegre torna-se, assim, símbolo de um legado milenar: a prova de que humanos e floresta podem coexistir de forma produtiva e sustentável, oferecendo lições valiosas para os desafios ambientais contemporâneos.

Referências da notícia

National Geographic. História da ocupação do Baixo Amazonas prova que humanos e floresta podem conviver. 2021