Parque de Monte Alegre guarda um dos registros mais antigos da ocupação humana na Amazônia
Pesquisas revelam ocupação humana há 12 mil anos mostram que diversidade e manejo sustentável garantiram garantiram populações densas na Amazônia.

Estudos arqueológicos realizados na região de Monte Alegre, no noroeste do Pará, estão reformulando a compreensão sobre a presença humana na Amazônia. Evidências acumuladas nas últimas décadas indicam que grandes populações floresceram na floresta por milênios, desenvolvendo cultura complexa, redes de troca e tecnologia, sem destruir o ambiente ao redor.
A história dessas descobertas remonta a agosto de 1849, quando o naturalista inglês Alfred Russel Wallace, coautor da teoria da evolução com Charles Darwin, percorreu o Baixo Amazonas. À margem esquerda do rio, encontrou uma paisagem incomum, com campos de cerrado, várzeas e serras recortadas por cavernas, contrastando com a floresta densa predominante.
Ao escalar a serra do Ererê, Wallace chegou à Pedra do Pilão, onde observou grandes círculos concêntricos e figuras complexas pintadas na rocha. O registro foi publicado em 1853 no livro Viagens pelos Rios Amazonas e Negro, despertando interesse científico que atravessaria gerações.
Das primeiras datações às novas interpretações
Mais de um século depois, em 1995, a arqueóloga norte-americana Anna Roosevelt iniciou escavações na caverna Pedra Pintada, na serra do Paituna. A datação por radiocarbono indicou que as pinturas tinham 11,2 mil anos, colocando Monte Alegre entre os sítios mais antigos das Américas.

Apesar da relevância, o estudo inicial não diferenciou estilos e fases das pinturas, sugerindo uma única ocupação. A partir de 2012, uma equipe coordenada por Edithe Pereira, do Museu Paraense Emílio Goeldi, passou a contextualizar os vestígios, relacionando arte rupestre e cerâmica.
Em 2014, novas escavações revelaram pigmentos e instrumentos que indicam atividade artística há cerca de 12 mil anos. A análise comparativa mostrou semelhanças entre figuras rupestres e cerâmicas produzidas por povos ceramistas por volta de 1.000 a.C., evidenciando ocupação quase contínua até a chegada dos europeus.
Redes de troca e autonomia regional
A arqueóloga Cristiana Barreto aprofundou o estudo das cerâmicas encontradas atrás do Domo de Monte Alegre. Ao identificar fragmentos com bordas florais típicas da tradição Koriabo — difundida do Caribe às Guianas e ao norte amazônico —, revelou conexões amplas e inesperadas.
Essas redes envolviam não apenas comércio, mas alianças sociais, rituais e intercâmbios culturais. O modelo organizacional identificado em Monte Alegre sugere sociedades horizontais, desafiando concepções tradicionais sobre centralização política na Amazônia pré-colonial.
Superando o “determinismo agrícola”
O arqueólogo Claide Moraes, da Universidade Federal do Oeste do Pará, critica o que chama de “determinismo agrícola”. Durante décadas, pesquisadores estrangeiros sustentaram que a floresta tropical limitaria o desenvolvimento humano, por não favorecer monoculturas típicas de outras regiões consideradas berços da agricultura.
Escavações recentes mostram o contrário. Vestígios de castanha com mais de 10 mil anos, além de restos de palmeiras, mandioca, peixes e quelônios, revelam dieta diversificada e manejo sofisticado dos recursos naturais. Estima-se que, por volta do ano 1000 d.C., cerca de 10 milhões de pessoas viviam na Amazônia.
Para os pesquisadores, o segredo do sucesso dessas populações estava na diversidade, não na monocultura. Monte Alegre torna-se, assim, símbolo de um legado milenar: a prova de que humanos e floresta podem coexistir de forma produtiva e sustentável, oferecendo lições valiosas para os desafios ambientais contemporâneos.
Referências da notícia
National Geographic. História da ocupação do Baixo Amazonas prova que humanos e floresta podem conviver. 2021