Amazônia pode evitar colapso da biodiversidade, mas depende de mudança de modelo
Evitar o colapso da biodiversidade amazônica exige abandonar modelos extrativistas e adotar transições sustentáveis baseadas em governança local, inovação social e estratégias regenerativas que integrem economia e conservação.

O desmatamento na Amazônia vai além de uma questão ambiental isolada e reflete um sistema socioeconômico complexo, segundo pesquisa publicada pela Universidade de Cornell.
De acordo com os autores, fatores como infraestrutura, tecnologia, instituições e até narrativas dominantes contribuem para moldar esse sistema, criando um ciclo que favorece a degradação da floresta.
Nesse cenário, a perda de biodiversidade não ocorre apenas por pressões diretas, mas também por estruturas que sustentam e reproduzem práticas insustentáveis ao longo do tempo.
Três caminhos possíveis
O estudo identifica três trajetórias principais para enfrentar o problema. A primeira é a “otimização”, baseada em eficiência e mitigação, como reduzir impactos sem mudar o modelo econômico.
A segunda é o enfoque em “capital natural”, que busca atribuir valor econômico à natureza. Embora útil, essa abordagem pode depender excessivamente de mercados e decisões centralizadas.
Ambas, segundo os autores, têm limitações importantes e podem não ser suficientes para reverter a perda de biodiversidade.
A alternativa regenerativa
A terceira via (considerada a mais promissora) é a transformação regenerativa. Ela enfatiza soluções locais, participação comunitária e inovação social.

Nesse modelo, populações locais deixam de ser apenas afetadas e passam a ser protagonistas na gestão da floresta. Isso inclui práticas agroecológicas, economia de base florestal e governança descentralizada.
A abordagem reconhece que soluções universais não funcionam em um sistema tão diverso quanto a Amazônia.
Evitar o colapso exige mudança estrutural
O artigo destaca que “curvar a trajetória” da perda de biodiversidade depende de mudanças profundas, não apenas ajustes incrementais.
Isso envolve repensar o desenvolvimento regional, integrando conservação, justiça social e economia. Sem isso, o sistema tende a continuar produzindo degradação.
Além disso, a pesquisa enfatiza que a transição regenerativa depende de múltiplos níveis de ação coordenada. Não se trata apenas de iniciativas isoladas, mas de alinhar políticas públicas, investimentos privados e conhecimento científico com práticas locais já existentes.
Transição exige integração, conhecimento e mudança de narrativas
Os autores destacam que comunidades indígenas e tradicionais possuem sistemas de manejo que historicamente mantiveram a floresta em equilíbrio, sendo fundamentais para qualquer estratégia futura. Integrar esse conhecimento com inovação tecnológica, como monitoramento por satélite, cadeias produtivas rastreáveis e bioeconomia, pode ampliar o impacto das soluções.
Outro ponto relevante é o papel das narrativas. O estudo argumenta que a forma como a Amazônia é percebida, seja como fronteira econômica ou como patrimônio ecológico, influencia diretamente decisões políticas e econômicas. Mudar essa narrativa é parte essencial da transição.
Por fim, o artigo ressalta que há uma janela de oportunidade, mas ela está se fechando rapidamente. A continuidade das tendências atuais pode levar a pontos de não retorno ecológico. Por isso, ações transformadoras precisam ocorrer com urgência, escala e consistência, evitando que a degradação avance além da capacidade de recuperação do sistema amazônico.
Referências da notícia
Cornell University. Artigo "Sustainability Transitions and Bending the Curve of Biodiversity Collapse in the Amazon Forest". 2025