Acqua Alta: Veneza em situação de emergência

A noite de terça-feira (12) foi marcada pela segunda maior "acqua alta" da história de Veneza. Três das cinco grandes inundações registradas na cidade ocorreram nos últimos 10 anos o que chama a atenção das autoridades sobre o efeito das mudanças climáticas no futuro de Veneza.

Carolina Barnez Carolina Barnez 14 Nov. 2019 - 11:24 UTC
A "acqua alta" nesta terça deixou mais de 80% da cidade inundada. Créditos: BBC.

A noite de terça-feira (12) foi marcada pela segunda maior "acqua alta" da história de Veneza. Mais de 80% da cidade está inundada e o prefeito declarou estado de emergência. Apesar da cidade estar preparada para inundações regulares, eventos extremos como esse ultrapassam a capacidade de Veneza e colocam em risco infraestrutura e serviços básicos. Muito se discute sobre as influências das mudanças climáticas no aumento na frequência dessas marés excepcionais.

Por volta da meia-noite de terça, a altura da elevação do mar em Veneza era de 1,87 m, a maior já registrada após o recorde de 1,94 m, em 4 de novembro de 1966. Os registros do nível do mar na cidade são feitos deste 1923. A praça de São Marcos, onde fica a Basílica de São Marcos, fica apenas 80 cm abaixo do nível médio do mar, sendo uma das regiões mais vulneráveis da cidade. A Basílica já apresenta sua estrutura comprometida - das 6 inundações que já sofreu em 1200 anos, 4 ocorreram nos últimos 20 anos.

O Prefeito de Veneza, Luigi Brugnaro, disse que esta inundação deixará um dano permanente na cidade, um patrimônios históricos da humanidade, e afirma que esse eventos são efeitos das mudanças climáticas. Brugnaro fala que "o preço que estamos pagando é alto" e pede para que a população divulgue fotos da situação crítica da cidade, fazendo um apelo para os governantes.

"Acqua Alta" e Mudanças Climáticas

A atual inundação foi causada pela combinação das marés altas, típicas de primavera, e uma maré meteorológica, forçada por ventos fortes, conhecidos na região como sirocco. O sirocco é um vento de sudoeste sobre o Mar Adriático, normalmente associado à um sistema de baixa pressão, no caso o Ciclone Extratropical Vitória. Assim como ano passado, a ocorrência de um ciclone, como intenso vento associado, junto com uma maré alta, normalmente mais significativas na primavera, resultaram em uma "acqua alta" extrema.

Apesar de ser complicado atribuir eventos singulares às mudanças climáticas, o aumento na frequência dessas marés extremas deve ser motivo de atenção. Das 10 piores "acqua alta" desde o início dos registros em 1923, 5 ocorreram nos últimos 20 anos. Fora do máximo registrado em 1966, o maior nível registrado havia sido 1,56 m em novembro de 2018, a mesma medida de 2008.

Os últimos relatórios do IPCC e diversos estudos apontam que o aumento do nível do mar está associado às mudanças climáticas. Além disso, alguns estudos mostram que Veneza está "afundando", o que a longo prazo, a deixa ainda mais vulnerável às variações do nível do mar. Também, a situação atmosférica que causou a maré meteorológica no Mar Adriático foi forçada por um padrão ondulatório do jato de altos níveis no Hemisfério Norte, que contribuiu para o desenvolvimento do sistema de baixa pressão no Mediterrâneo.

Estudos mostram que o padrão ondulatório do jato está ficando mais acentuado em função as mudanças climáticas, o que, aliado às marés altas de primavera, podem aumentar a ocorrência de "acqua alta" em Veneza nessa época do ano.

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