Oceano Pacífico alcança limiar de El Niño e o pico do fenômeno pode começar no inverno

Embora a anomalia semanal de temperatura da superfície do mar não seja suficiente para caracterizar o fenômeno, esta provavelmente é a primeira de muitas semanas do El Niño 2026/2027.

A previsão de anomalia de temperatura da superfície do mar para junho-julho-agosto mostra valores superiores a 2°C no Pacífico Equatorial, de acordo com a média multi-modelos do Copernicus Climate Change Service. Créditos: C3S/Copernicus.
A previsão de anomalia de temperatura da superfície do mar para junho-julho-agosto mostra valores superiores a 2°C no Pacífico Equatorial, de acordo com a média multi-modelos do Copernicus Climate Change Service. Créditos: C3S/Copernicus.

De acordo com os dados divulgados nesta segunda-feira (18) pela NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), a anomalia relativa da temperatura da superfície do mar (TSM) na região de monitoramento Niño 3.4 atingiu, na semana centrada em 13 de maio, o limiar de El Niño pela primeira vez desde meados de março, quando o evento La Niña perdeu configuração.

Além disso, a média dos modelos climáticos do International Research Institute (IRI), da Universidade de Columbia (EUA), atualizada nesta terça-feira (19), não somente aumentou as anomalias projetadas de TSM para cerca de 2,3°C como também antecipou o ápice do evento. As anomalias de TSM podem ultrapassar 2°C já no trimestre de julho-agosto-setembro, e se manter acima deste valor até o próximo ano.

A seguir, entenda o que a anomalia semanal dentro do limiar de El Niño representa, o que diz a nova rodada das projeções climáticas e o que se espera do Super El Niño.

O El Niño 2026/2027 começou?

O gráfico abaixo mostra a evolução recente das condições de anomalia relativa de TSM na região de monitoramento Niño 3.4, entre 11 de março e 13 de maio de 2026. As linhas tracejadas destacam o limiar de La Niña (em azul) e de El Niño (em vermelho)

Nota-se que a última semana em condições de La Niña ocorreu em 18 de março e, após cerca de apenas dois meses, condições de El Niño foram alcançadas na semana centrada em 13 de maio.

Evolução recente da anomalia relativa de TSM na região do Niño 3.4 de acordo com os dados do CPC/NOAA.
Evolução recente da anomalia relativa de TSM na região do Niño 3.4 de acordo com os dados do CPC/NOAA.

Embora uma anomalia semanal isolada ainda não seja suficiente para caracterizar oficialmente a consolidação do fenômeno, já que a variabilidade da TSM é naturalmente maior nessa escala de tempo, a evolução recente das condições no Pacífico tropical, combinada às projeções dos modelos climáticos, indica que esta pode ser, de fato, a primeira de muitas semanas do El Niño 2026/2027. Isso representaria uma transição praticamente abrupta entre as fases, com apenas 2 meses de neutralidade.

O fluxograma da NOAA mostra os critérios usados para caracterizar as condições de El Niño no Pacífico tropical. Créditos: CPC/NOAA.
O fluxograma da NOAA mostra os critérios usados para caracterizar as condições de El Niño no Pacífico tropical. Créditos: CPC/NOAA.

Um evento El Niño é declarado pela NOAA quando as anomalias de um mês alcançam +0,5°C (e não uma semana) e há confiança de persistência do aquecimento nos próximos meses.

O Super El Niño vem aí?

As previsões climáticas do sistema ENSO (composto pelas fases El Niño, La Niña e neutralidade) são atualizadas mensalmente pelo IRI, incorporando as condições oceânicas e atmosféricas mais recentes observadas no Pacífico tropical.

A rodada de maio, divulgada nesta terça-feira (19), reforçou ainda mais o cenário de um El Niño muito intenso (acima de 2°C) em 2026/2027. Quando analisamos a média das projeções dos modelos dinâmicos, representada pela linha mais espessa da pluma, observa-se um novo aumento das anomalias previstas.

Previsão dos modelos de ENSO iniciada em abril (esquerda) e maio (direita). As linhas em vermelho destacam as anomalias máximas de 2°C e ~2,2°C. Créditos: Elaborada por Meteored/Fonte dos gráficos: IRI.
Previsão dos modelos de ENSO iniciada em abril (esquerda) e maio (direita). As linhas em vermelho destacam as anomalias máximas de 2°C e ~2,2°C. Créditos: Elaborada por Meteored/Fonte dos gráficos: IRI.

Em abril, os modelos indicavam anomalias ligeiramente superiores a +2°C em um curto período de tempo, no trimestre outubro-novembro-dezembro, ápice do evento.

Agora, a nova atualização elevou novamente essas projeções, alcançando cerca de 2,2°C no mesmo período, mas não somente isso: o gráfico mostra que anomalias superiores a 2°C podem iniciar entre o final do inverno e início da primavera, se estendendo até dezembro-janeiro-fevereiro de 2027.

Isso representa uma intensidade forte, antecipada e prolongada, que pode injetar muito calor e umidade na atmosfera, favorecendo o aumento das temperaturas globais, regionais e intensificando eventos extremos de secas e chuvas.

Mesmo com maio ainda inserido na chamada “barreira da primavera/outono” (período em que as previsões possuem maior incerteza), a evolução recente das projeções mostra que os modelos vêm intensificando gradualmente o sinal de aquecimento do Pacífico equatorial a cada nova rodada mensal, à medida que novas observações são incorporadas. Isso aumenta a confiança em um evento no mínimo forte e que pode, inclusive, atingir o limiar de um “Super El Niño”.

O que é um Super El Niño?

Apesar do alarmismo frequentemente associado a um possível “Super El Niño”, chamado por alguns até de “El Niño Godzilla”, é importante destacar que:

Um evento forte ou muito forte não significa automaticamente impactos proporcionalmente maiores no tempo e no clima.

De forma geral, eventos intensos aumentam a probabilidade de ocorrência dos padrões clássicos associados ao El Niño, mas os efeitos regionais dependem de diversos fatores atmosféricos e não crescem de forma linear com a intensidade das anomalias no Oceano Pacífico.

Impactos típicos do El Niño para dezembro-fevereiro (esquerda) e junho-agosto (direita), onde “wet” significa “chuvoso”, “dry” significa “seco” e “warm’ quente. Créditos: CPC/NOAA.
Impactos típicos do El Niño para dezembro-fevereiro (esquerda) e junho-agosto (direita), onde “wet” significa “chuvoso”, “dry” significa “seco” e “warm’ quente. Créditos: CPC/NOAA.

No contexto do Brasil, os efeitos do El Niño são chuvas acima da média no Sul do país, especialmente durante a primavera e o verão, elevando também o risco de eventos extremos de precipitação. Já no Norte e em parte do Nordeste, a tendência é de precipitação abaixo da média. No Sudeste, o sinal climático para chuva costuma ser menos consistente, mas há maior probabilidade de temperaturas acima da média, além do aumento na frequência e duração das ondas de calor.

Em escala global, o aquecimento anômalo do Pacífico equatorial tende a elevar a temperatura média do planeta, aumentando as chances de novos recordes de calor em 2027 e favorecendo a intensificação de eventos extremos em diferentes regiões do mundo.

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