Vazão da água cresce até 60% em afluentes do Amazonas, ameaçando ecossistemas e populações locais
Estudo internacional revela aumento expressivo da vazão em áreas alagadas do Amazonas, intensificando erosão, transporte de sedimentos e impactos sobre peixes, florestas de várzea e comunidades ribeirinhas.

O rio Amazonas, reconhecido como o mais extenso e volumoso do planeta, enfrenta mudanças hidrológicas cada vez mais intensas. Um estudo conduzido por pesquisadores do Brasil, França e Reino Unido aponta que a vazão da água em planícies de inundação e afluentes do baixo Amazonas cresceu significativamente nas últimas décadas, chegando a registrar aumento de até 60% em determinadas regiões. O fenômeno preocupa cientistas por seus efeitos sobre a biodiversidade, as populações ribeirinhas e o equilíbrio ecológico da floresta de várzea.
Com aproximadamente 6.900 quilômetros de extensão, desde os Andes peruanos até o oceano Atlântico, o Amazonas forma a maior bacia hidrográfica do mundo. Em Óbidos, no Pará, a cerca de 800 quilômetros da foz, o rio apresenta vazão média de 160 mil metros cúbicos por segundo, volume comparável à soma dos sete maiores rios do planeta. Durante parte do ano, as águas inundam extensas áreas da várzea amazônica, distribuindo sedimentos e nutrientes fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas.
Nos últimos anos, porém, eventos extremos se tornaram mais frequentes. As enchentes históricas de 2009 e 2021 fizeram a vazão em regiões como a planície de Parintins ultrapassar 40 mil metros cúbicos por segundo, praticamente igualando a vazão média do rio Congo, na África. Paralelamente, períodos de seca severa também passaram a atingir a região com maior intensidade.
Vazão cresce nas planícies inundáveis
A pesquisa foi liderada pela hidróloga Alice Fassoni de Andrade, da Universidade de Brasília, e analisou dados entre 1970 e 2023. Utilizando imagens de satélite, medições de nível da água e modelos computacionais avançados, os cientistas reconstruíram o histórico do fluxo de água em quatro grandes planícies de inundação entre Manaus e Santarém.

Os resultados mostraram que, entre 2005 e 2023, a vazão média do Amazonas aumentou 4,7% em relação ao período anterior. Em algumas áreas, no entanto, o crescimento foi muito mais expressivo. Na planície do Lago Grande do Curuai, em Santarém, o aumento chegou a 60%, valor considerado surpreendente pelos pesquisadores.
Segundo Andrade, estudos anteriores já apontavam mudanças na vazão do rio principal, mas ainda havia pouca compreensão sobre o comportamento das planícies alagáveis. Para investigar o fenômeno, a equipe desenvolveu um modelo hidrodinâmico detalhado de um trecho de 1.100 quilômetros do Amazonas, abrangendo uma área de quase 40 mil quilômetros quadrados.
Tecnologia ajuda a entender o fenômeno
A medição da vazão em um rio das dimensões do Amazonas é considerada uma tarefa complexa. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico monitora continuamente o nível do rio em diferentes estações, enquanto pesquisadores do Serviço Geológico do Brasil realizam medições diretas algumas vezes por ano com equipamentos que utilizam ultrassom para calcular a velocidade da água em diferentes profundidades.
Os cientistas observaram que pequenas alterações na vazão do rio principal podem provocar mudanças muito maiores nas planícies inundáveis. Isso ocorre porque essas áreas são rasas e sensíveis a pequenas elevações no nível da água, o que acelera o escoamento e amplia os efeitos das cheias.
Impactos ambientais preocupam pesquisadores
Especialistas afirmam que o aumento da velocidade da água pode intensificar processos de erosão e transporte de sedimentos, alterando profundamente os ecossistemas amazônicos. O ecólogo Leandro Castello alerta que espécies adaptadas a águas mais calmas, como o pirarucu, o tucunaré e o acará-açu, podem enfrentar dificuldades diante das novas condições hidrológicas.
Além dos peixes, a vegetação da várzea desempenha papel essencial na contenção da força das águas. Árvores e plantas aquáticas ajudam a reduzir a velocidade das correntezas e diminuem os impactos das enchentes sobre as comunidades ribeirinhas. Pesquisadores alertam, contudo, que poucas áreas dessas florestas estão protegidas por unidades de conservação.
Os resultados do estudo reforçam projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, que apontam para uma intensificação de secas e cheias na Amazônia em decorrência do aquecimento global. Cientistas defendem a ampliação do monitoramento das planícies inundáveis e a criação de políticas públicas voltadas à conservação da várzea amazônica e à proteção das populações que dependem diretamente do rio.
Referências da notícia
Environmental Research Letters. Artigo Amplified response of Amazon floodplain flows to rising river levels. 2026
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