Massas de ar frio atípicas devem continuar atingindo o Brasil até o início do verão; entenda o que está acontecendo
O Brasil deve continuar enfrentando temperaturas abaixo da média nesta reta final de novembro e início de dezembro, principalmente devido à fase negativa da Oscilação Antártica, que favorece a entrada de massas de ar frio.

O verão meteorológico começa no dia 1º de dezembro, marcando oficialmente o início do trimestre mais quente do ano na climatologia (dezembro, janeiro e fevereiro). Mesmo com o verão “batendo na porta”, um padrão de temperaturas abaixo do normal deve persistir nos próximos dias. A atuação mais frequente de massas de ar frio, influenciada por uma fase negativa e prolongada da Oscilação Antártica, promete manter o cenário mais ameno em várias regiões do país, pelo menos até a primeira semana de dezembro. Confira os detalhes.
Novembro até agora
Entre os dias 1 e 24 de novembro, grande parte do Brasil registrou temperaturas entre 1°C e 2°C abaixo da média climatológica. Os mapas de anomalia de temperatura mínima (à esquerda) e máxima (à direita) mostram que:
- No Centro-Sul e na faixa leste do país, as temperaturas mínimas ficaram até 2°C abaixo da média
- Em relação às máximas, observa-se um predomínio de valores abaixo da média em praticamente todo o território, inclusive em áreas do Norte e Nordeste
Considerando conjuntamente as temperaturas mínimas e máximas, a área que mais se destaca pelo frio persistente é o centro-sul.

Estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, grande parte do Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, sul de Minas Gerais e sul da Bahia apresentam anomalias consistentemente negativas, reforçando um novembro mais ameno que o habitual nessa região.
A previsão de anomalia de temperatura para a próxima semana indica que este padrão de temperaturas atípicas mais frias no centro-sul e faixa leste deve se manter até, pelo menos, a primeira semana de dezembro.
Previsão de temperaturas abaixo da média
A rodada mais atual do modelo ECMWF, de confiança da Meteored, prevê anomalias de temperatura predominantemente negativas sobre o Brasil na próxima semana, entre 1 e 8 de dezembro, como pode ser visto no mapa abaixo.

As áreas em azul indicam onde as temperaturas estão previstas serem abaixo da média, enquanto as áreas em branco indicam valores dentro do normal e, em vermelho, temperaturas acima do normal.
Enquanto o Brasil Central e costa norte do país devem ter anomalias entre 1°C e 3°C acima da média, temperaturas abaixo da média devem continuar predominando nas seguintes áreas:
- Região Sul
- Metade leste do Sudeste
- Sul do Nordeste
- Entre o sul da Região Norte e o noroeste do Centro-Oeste
- Sudoeste e sul do Mato Grosso do Sul
Isso se deve principalmente à fase negativa da Oscilação Antártica, também chamada de Modo Anular Sul.
O papel da Oscilação Antártica
A Oscilação Antártica (AAO) é o principal modo de variabilidade climática do Hemisfério Sul extratropical. De uma forma simplificada, ela descreve padrões de pressão e ventos que controlam a dinâmica de frentes frias e massas de ar frio que saem do Pólo Sul em direção às latitudes mais baixas.
A oscilação possui duas fases:
- Na fase positiva, a pressão atmosférica fica mais baixa sobre o Polo Sul e mais alta no cinturão ao seu redor, o que mantém os sistemas de baixa pressão mais “presos” na Antártida, dificultando que frentes frias avancem para norte
- Já na fase negativa, ocorre o contrário: a pressão fica mais alta no Polo e mais baixa nas latitudes médias, o que facilita o deslocamento dos sistemas para latitudes mais baixas
Em condições normais, a AAO alterna entre essas fases a cada dez a quinze dias.
Essa relação fica clara na imagem abaixo, que mostra a fase negativa da AAO sincronizada com o aquecimento da coluna de ar sobre o Polo Sul.

O aumento de temperatura na estratosfera enfraquece o chamado “vórtice polar”, o cinturão de ventos fortes que circunda a Antártica. Quando o vórtice enfraquece, essa mudança se propaga para níveis mais baixos da atmosfera, reorganizando os ventos e favorecendo justamente a fase negativa da AAO.
A fase negativa da AAO tende a facilitar a chegada de frentes frias ao Cone Sul da América do Sul e ao Brasil, porque deixa os ventos de oeste mais fracos e deslocados para latitudes mais baixas, abrindo caminho para massas de ar frio alcançarem o país com maior frequência.

A previsão indica que essa fase negativa deve continuar predominando pelo menos até a primeira semana de dezembro, que é o limite atual de previsão (cerca de 15 dias). Isso explica a manutenção das anomalias negativas de temperatura previstas na virada do mês e início do verão meteorológico.