2026 sobe rapidamente no ranking do calor global e aumenta as chances de 2027 entrar para a história

O aumento das temperaturas globais voltou a acelerar: após subir do quinto para o segundo lugar no ranking histórico em apenas três meses, 2026 pode abrir caminho para novos recordes no fim do ano e em 2027.

Intensas ondas de calor na Europa ajudaram a elevar as temperaturas globais. Na foto, pessoas se refrescando em uma fonte próximo à Torre Eiffel, em Paris/França. Créditos: Reprodução/Abdul Saboor/ Reuters.
Intensas ondas de calor na Europa ajudaram a elevar as temperaturas globais. Na foto, pessoas se refrescando em uma fonte próximo à Torre Eiffel, em Paris/França. Créditos: Reprodução/Abdul Saboor/ Reuters.

O aumento das temperaturas globais voltou a acelerar em 2026. Depois de começar o ano com janeiro ocupando apenas a quinta posição entre os janeiros mais quentes já registrados, o planeta alcançou, em maio, o segundo lugar no ranking histórico para o mês, posição que se repetiu em junho. Os dados são do Copernicus, o Serviço de Mudanças Climáticas da União Europeia, responsável por um dos conjuntos de dados climáticos mais utilizados no mundo, o ERA5.

A sequência reforça a intensificação do aquecimento global em um momento em que o El Niño ainda está se fortalecendo no Oceano Pacífico equatorial. Como o fenômeno tende a exercer seu maior impacto sobre a temperatura média global com alguns meses de atraso, ele pode favorecer novos recordes de calor ainda no fim de 2026 e, principalmente, ao longo de 2027, após alcançar seu pico.

A seguir, veja como a temperatura global evoluiu ao longo de 2026, os principais destaques do segundo junho mais quente da história e por que o fortalecimento do El Niño aumenta as chances de novos recordes nos próximos meses.

A escalada das temperaturas globais em 2026

A trajetória de 2026 chama atenção porque mostra uma escalada praticamente contínua no ranking histórico de anomalia de temperatura global em relação ao período pré-industrial (1850-1900) para cada mês do ano:

  • Janeiro (+1.47°C): 5º mais quente
  • Fevereiro (+1.49°C): 5º mais quente
  • Março (+1.48°C): 4º mais quente
  • Abril (+1.43°C): 3º mais quente
  • Maio (+1.42°C): 2º mais quente
  • Junho (+1.39°C) 2º mais quente

Basicamente os meses saíram da 5ª posição de mês mais quente para segunda em apenas 3 meses (fevereiro a maio). À primeira vista, pode parecer contraditório que a anomalia global tenha diminuído de +1,49°C em fevereiro para +1,39°C em junho, enquanto o ranking histórico subiu da quinta para a segunda posição.

Anomalias de temperatura global para o mês de junho entre 1980 e 2026, onde se observa que última barra (2026) é a segunda maior, atrás apenas de 2024. Créditos: Copernicus/ECMWF.
Anomalias de temperatura global para o mês de junho entre 1980 e 2026, onde se observa que última barra (2026) é a segunda maior, atrás apenas de 2024. Créditos: Copernicus/ECMWF.

Mas a explicação está no fato de que cada mês é comparado apenas com os mesmos meses dos anos anteriores. Como maio e junho são, em média, mais frios que janeiro e fevereiro, anomalias ligeiramente menores foram suficientes para colocar esses meses entre os mais quentes já registrados.

Como foi o segundo junho mais quente da história?

O mais recente Boletim Climático do Copernicus, lançado no último dia 9, mostra a distribuição de anomalias de temperatura ao redor do globo. Embora junho tenha sido o segundo mais quente da história em escala global, isso não significa que todas as regiões do planeta registraram temperaturas acima da média.

Anomalias de temperatura do ar na superfície em junho de 2026 com base na reanálise ERA5. Créditos: Copernicus.
Anomalias de temperatura do ar na superfície em junho de 2026 com base na reanálise ERA5. Créditos: Copernicus.

Foi exatamente o que ocorreu na América do Sul. Desde meados do outono, sucessivas incursões de massas de ar polar favoreceram anomalias negativas de temperatura em parte do continente. No Centro-Sul do Brasil, diversas regiões registraram temperaturas entre 1°C e 3°C abaixo da média em junho.

A temperatura global representa uma média de toda a superfície terrestre e oceânica, de modo que áreas excepcionalmente quentes podem compensar regiões temporariamente mais frias.

Pode ser observado no mapa acima que as maiores anomalias positivas de temperatura em junho foram observadas no Hemisfério Norte. Alguns destaques incluem Ásia Central e no oeste da Sibéria, norte do Canadá, África e, claro, a Europa - onde uma intensa onda de calor elevou as temperaturas em grande parte do continente, com anomalias entre 3°C e 5°C. Fora do Hemisfério Norte o maior destaque foi a região a oeste da Península Antártica.

El Niño pode impulsionar novos recordes de temperatura global

O segundo semestre de 2026 pode marcar uma nova aceleração do aquecimento global. Além da tendência de aquecimento causada pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa, o planeta passa a contar com um reforço natural: o El Niño.

Temperatura diária da superfície do mar (°C), média entre 60°S e 60°N. Créditos: Copernicus/ECMWF.
Temperatura diária da superfície do mar (°C), média entre 60°S e 60°N. Créditos: Copernicus/ECMWF.

Enquanto junho de 2026 foi o segundo mais quente já registrado para a temperatura média do ar, os oceanos seguem batendo recordes. Desde meados de junho, a temperatura média da superfície do mar vem atingindo os maiores valores já observados para o mês, refletindo também o fortalecimento do El Niño no Pacífico Equatorial. As previsões mais recentes indicam que o evento de 2026/2027 pode figurar entre os mais intensos do século, com anomalias próximas de 3°C.

Previsão de anomalia de temperatura da superfície do mar para o trimestre de outubro-dezembro, de acordo com uma média dos principais modelos ao redor do mundo. Créditos: Copernicus.
Previsão de anomalia de temperatura da superfície do mar para o trimestre de outubro-dezembro, de acordo com uma média dos principais modelos ao redor do mundo. Créditos: Copernicus.

No entanto, o impacto do El Niño sobre a temperatura média global não é imediato. Como existe um atraso de alguns meses entre o aquecimento das águas do Pacífico e a resposta da atmosfera, os maiores efeitos costumam ser observados após o pico do fenômeno, que ocorre entre setembro e dezembro.

Assim, embora ainda seja cedo para afirmar que 2027 será o ano mais quente da história, a rápida escalada observada em 2026, aliada ao fortalecimento do El Niño, aumenta a probabilidade de novos recordes mensais de temperatura global no fim de 2026, cenário que pode se prolongar ao longo de 2027.