Modelo da NOAA amplia escala de seus gráficos após prever El Niño acima de 4°C

As projeções mais recentes do CFSv2 levaram um dos principais gráficos utilizados para monitorar o El Niño a ampliar sua escala de 4°C para 5°C. A mudança acompanha o aumento sucessivo das previsões do modelo e chama atenção para um possível evento de intensidade excepcional.

As anomalias previstas pelo CFSv2/NOAA para outubro de 2026 (pico do evento) já alcançam o limite superior da escala de cores do mapa. Créditos: CPC/NOAA.
As anomalias previstas pelo CFSv2/NOAA para outubro de 2026 (pico do evento) já alcançam o limite superior da escala de cores do mapa. Créditos: CPC/NOAA.

As novas projeções para o El Niño estão desafiando até mesmo os limites dos gráficos tradicionais da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos). Na atualização mais recente do modelo climático CFSv2, um dos principais produtos utilizados para acompanhar a evolução das anomalias de temperatura da superfície do mar (TSM) na região Niño 3.4, teve sua escala ampliada de 4°C para 5°C.

Previsão de anomalias absolutas de TSM na região do Niño 3.4 iniciada com condições observadas entre 24 de junho e 3 de julho de 2026. Créditos: CPC/NOAA.
Previsão de anomalias absolutas de TSM na região do Niño 3.4 iniciada com condições observadas entre 24 de junho e 3 de julho de 2026. Créditos: CPC/NOAA.


A mudança acompanha o aumento gradual das previsões do modelo nos últimos meses e permite representar adequadamente anomalias que passaram a exceder o limite anteriormente utilizado.

Embora a alteração tenha chamado atenção, ela não significa, por si só, que um El Niño dessa magnitude irá necessariamente se confirmar.

O CFSv2 é apenas um dos diversos modelos utilizados para monitorar o fenômeno e suas projeções devem sempre ser interpretadas em conjunto com outras ferramentas. Além disso, a própria NOAA ressalta que essas simulações não representam a previsão sazonal oficial do Centro de Previsão Climática (CPC), sendo apenas um dos elementos considerados na elaboração dos prognósticos climáticos. A seguir, entenda o que mudou e como interpretar essas projeções.

Gráficos clássicos ficaram pequenos para as previsões do El Niño 2026/27

Desde abril, os gráficos clássicos do CFSv2 vêm passando por sucessivas ampliações em sua escala. Na atualização de abril, o eixo vertical permitia representar anomalias de até 3°C na região Niño 3.4. Em maio, o limite passou para 4°C, permanecendo assim durante junho.

No entanto, as previsões continuaram aumentando e alguns membros do ensemble (conjunto de previsões) passaram a atingir o teto da escala, dificultando a visualização completa das maiores anomalias.

Evolução do limite superior das previsões do modelo CFSv2 entre abril ecom sucessivos aumentos de escala. Créditos: Elaborado por Meteored/Fonte: CFSv2.
Evolução do limite superior das previsões do modelo CFSv2 entre abril ecom sucessivos aumentos de escala. Créditos: Elaborado por Meteored/Fonte: CFSv2.

Na atualização mais recente divulgada em julho, iniciada com condições observadas entre 24 de junho e 3 de julho, o limite superior foi novamente ampliado, desta vez para 5°C, permitindo representar integralmente as previsões mais elevadas produzidas pelo modelo.

As previsões do CFSv2 não são a previsão oficial da NOAA

Apesar de chamar atenção pelas anomalias extremamente elevadas, o CFSv2 não representa, isoladamente, a previsão oficial da NOAA para o El Niño.

O próprio CPC destaca em sua página que os produtos do CFSv2 não correspondem ao prognóstico sazonal oficial, mas constituem apenas um dos diversos insumos utilizados na elaboração das perspectivas climáticas divulgadas pelo órgão.

Cada modelo climático possui diferentes formas de representar a interação entre oceano e atmosfera, além de vieses e limitações próprias. Por esse motivo, a avaliação da evolução do ENSO deve considerar o conjunto de modelos disponíveis, e não apenas uma única simulação.

Além disso, o CPC disponibiliza uma segunda família de produtos, denominada Additional CFSv2 SST Forecasts, que aplica correções estatísticas às previsões originais do modelo.

Correções estatísticas reduzem a intensidade das previsões

Nos produtos adicionais, o CPC oferece versões corrigidas das previsões do índice Niño 3.4, identificadas como “PDF correction e PDF + Spread correction”. A primeira correção (PDF correction) ajusta a distribuição estatística das previsões para reduzir os vieses sistemáticos do modelo em relação às observações históricas. Já a segunda (PDF + Spread correction) aplica um ajuste adicional à dispersão do ensemble, tornando a variabilidade entre os membros mais consistente com os erros observados nas previsões passadas.

Previsão de anomalias absolutas de TSM na região do Niño 3.4 iniciada com condições observadas entre 24 de junho e 3 de julho de 2026, após correções estatísticas. Créditos: CPC/NOAA.
Previsão de anomalias absolutas de TSM na região do Niño 3.4 iniciada com condições observadas entre 24 de junho e 3 de julho de 2026, após correções estatísticas. Créditos: CPC/NOAA.


Como consequência, as projeções médias tornam-se mais conservadoras. Enquanto os gráficos clássicos do CFSv2 apresentam membros do ensemble alcançando valores superiores a 4°C, as versões corrigidas indicam anomalias próximas de 3°C para o pico do evento - o que ainda é um valor muito elevado.

Isso não significa que uma das previsões esteja "certa" e a outra "errada", mas evidencia como o pós-processamento estatístico busca compensar tendências conhecidas do modelo.

Afinal, o que esperar do Super El Niño em 2026/2027?

Embora um único modelo não seja suficiente para definir a intensidade do fenômeno, o CFSv2 não está sozinho ao indicar um El Niño excepcionalmente intenso. As previsões mais recentes do ECMWF, iniciadas em julho, também mostram parte dos membros do ensemble alcançando anomalias próximas ou superiores a 4°C na região Niño 3.4 durante o pico do evento, reforçando que esse cenário não é exclusivo de um único sistema de previsão.

Previsão anomalia de TSM para a região do Niño 3.4 do modelo ECMWF iniciada em julho. Créditos: ECMWF.
Previsão anomalia de TSM para a região do Niño 3.4 do modelo ECMWF iniciada em julho. Créditos: ECMWF.

Por outro lado, ao analisar o conjunto dos principais modelos climáticos, o sinal mais robusto é que o El Niño deverá superar com folga o limiar de um evento muito forte.

A evolução das previsões multimodelo indica que as anomalias na região Niño 3.4 devem ultrapassar 2°C, podendo superar 2,5°C, o que coloca o fenômeno entre os mais intensos já observados, caso as projeções se confirmem.