Primeiro vertebrado a conquistar ambiente terrestre pode ter crescido sem fase larval, revela estudo
Fósseis raros de animais recém-nascidos desafiam hipótese tradicional sobre a evolução dos primeiros tetrápodes e indicam que eles se desenvolviam diretamente, sem passar por metamorfose semelhante à dos anfíbios modernos.

Os primeiros vertebrados a explorar o ambiente terrestre podem ter seguido um caminho evolutivo diferente do que os cientistas imaginaram durante décadas. Um estudo publicado na revista Science apresenta evidências de que os primeiros tetrápodes (grupo que deu origem aos anfíbios, répteis, aves e mamíferos) provavelmente cresciam por desenvolvimento direto, sem passar por uma fase larval semelhante à dos girinos dos anfíbios atuais.
A conclusão foi alcançada por pesquisadores do Museu Field de História Natural, nos Estados Unidos, após a análise de fósseis excepcionalmente preservados de recém-nascidos de embolômeros. Esses predadores, que lembravam uma combinação entre crocodilos e enguias, viveram entre 350 milhões e 280 milhões de anos atrás e tiveram seus restos encontrados no sítio paleontológico de Mazon Creek, no estado norte-americano de Illinois.
Até agora, a hipótese mais aceita era a de que os primeiros tetrápodes passavam por uma metamorfose semelhante à observada em sapos e salamandras modernos. Os novos fósseis, no entanto, indicam que esses animais já nasciam com uma estrutura corporal muito próxima à dos adultos, crescendo apenas em tamanho até atingir a maturidade reprodutiva.
Novas pistas sobre a conquista da terra firme
Os primeiros tetrápodes surgiram durante o período Devoniano, entre aproximadamente 419 milhões e 359 milhões de anos atrás, quando alguns vertebrados começaram a abandonar gradualmente os ambientes aquáticos. Essa transição representou um dos momentos mais importantes da história da vida, abrindo caminho para a diversificação dos animais terrestres.
Entretanto, ao examinarem os fósseis juvenis dos embolômeros, os cientistas não encontraram sinais de brânquias externas nem de outras estruturas típicas de larvas aquáticas. Segundo o pesquisador Jason Pardo, coautor do estudo, os exemplares oferecem um raro registro dos primeiros estágios da vida desses animais. "Esses são detalhes íntimos dos primeiros momentos da vida desses animais. Nunca vimos isso antes para toda essa parte da árvore evolutiva", afirmou ao portal Live Science.
Desenvolvimento direto muda interpretação da evolução
No desenvolvimento direto, o organismo nasce com a mesma estrutura básica que manterá na fase adulta, passando apenas por crescimento e amadurecimento. Os seres humanos, por exemplo, seguem esse padrão, sem sofrer transformações corporais radicais ao longo da vida.

Já no desenvolvimento indireto, comum entre muitos anfíbios, o animal nasce em uma forma larval adaptada ao ambiente aquático e posteriormente passa por uma metamorfose. Os resultados do estudo indicam que os primeiros tetrápodes analisados se aproximavam do primeiro modelo, e não do segundo.
Além dos embolômeros, a equipe investigou fósseis de outros grupos relacionados, como peixes megalictídeos e aistópodes, animais alongados e sem membros que viveram durante a transição entre a água e a terra. Em todos os casos, as evidências apontaram para um padrão de desenvolvimento direto.
Descoberta reforça importância de revisar hipóteses científicas
Embora os autores reconheçam que a evolução dos primeiros vertebrados terrestres seja mais complexa do que uma única estratégia de desenvolvimento, os resultados desafiam uma interpretação amplamente difundida sobre a origem dos tetrápodes.
Segundo Pardo, a ideia de que a metamorfose era uma etapa obrigatória na conquista do ambiente terrestre persistiu por muitos anos por falta de evidências diretas sobre os estágios iniciais da vida desses animais. Os fósseis encontrados em Mazon Creek ajudam a preencher essa lacuna e sugerem que diferentes estratégias de desenvolvimento coexistiram ao longo da evolução.
Para Arjan Mann, curador assistente do Museu Field de História Natural e coautor do trabalho, a pesquisa também demonstra a importância de reavaliar teorias consolidadas à medida que novos registros fósseis são descobertos. "A principal mensagem deste estudo é que devemos sempre questionar o conhecimento convencional na ciência, especialmente quando essas ideias antigas não têm respaldo substancial", conclui.
Referência da notícia
Revista Galileu. (2026). Primeiro vertebrado a conquistar ambiente terrestre não era como cientistas imaginavam.