Pesquisadores retomam investigações em sítio arqueológico que abriga única múmia conhecida do Brasil
Gruta do Gentio II, em Unaí (MG), reúne vestígios de milhares de anos de ocupação indígena e volta a ser estudada com técnicas modernas; campanha de campo segue até 14 de agosto.

Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) retomaram as investigações arqueológicas na Gruta do Gentio II, em Unaí, no noroeste de Minas Gerais. O sítio, considerado um dos mais importantes do Brasil Central, ficou conhecido pela descoberta, na década de 1970, da múmia natural de uma menina de aproximadamente 12 anos, preservada há cerca de 3.350 anos.
A nova campanha começou em julho e reúne pesquisadores e estudantes interessados em ampliar o conhecimento sobre os povos que ocuparam a região ao longo de milhares de anos. Os trabalhos de campo de 2026 seguem até 14 de agosto e incluem a investigação de novos sepultamentos e de outros vestígios arqueológicos ainda preservados na gruta.
Localizada na fazenda Vargem Bonita, a cerca de 30 quilômetros da área urbana de Unaí e quase 180 quilômetros do Distrito Federal, a Gruta do Gentio II é formada por cavernas e abrigos rochosos. A ocupação humana no local começou entre 12 mil e 5 mil anos antes do presente, com grupos de caçadores-coletores, e continuou por diferentes períodos.
Um ponto de encontro entre povos e culturas
Segundo Francisco Pugliese, professor do Departamento de Antropologia da UnB e coordenador do Projeto Arqueologia e História Indígena no Brasil Central (Phibra), a localização do sítio ajuda a explicar sua importância. A gruta está em uma área estratégica entre os altos cursos dos rios São Francisco, Tocantins e Paraná.
A equipe também investiga sepultamentos datados entre os séculos XIII e XV. O objetivo é identificar possíveis relações históricas, culturais e biológicas entre essas populações e povos indígenas Macro-Jê que vivem atualmente no Brasil Central, como Xakriabá, Xavante e Xerente.
Múmia revela condições excepcionais de preservação
As primeiras escavações foram realizadas pelo Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) nas décadas de 1970 e 1980. Entre os achados estava a múmia de uma menina, batizada de Acauã, preservada pelo microclima seco e estável do interior da caverna. Confira as imagens tridimensionais da múmia Acauã.

As pesquisas antigas identificaram restos mortais de 78 indivíduos, alguns com cabelos e tecidos moles preservados. Também foram encontrados objetos como penas, cestarias, adornos, cerâmicas, sementes e instrumentos de pedra. A preservação permite análises que podem revelar informações sobre doenças, alimentação, parasitas e até DNA.
Depois das primeiras escavações, o sítio ficou praticamente abandonado por quase quatro décadas. Quando os pesquisadores retornaram, em 2021, encontraram partes de sepultamentos expostas e ameaçadas pela ação da chuva, de animais e da circulação de visitantes, aumentando a urgência pela conservação dos vestígios.
Novas técnicas ampliam investigação
Entre 2021 e 2025, mais de 300 partes de sepultamentos humanos foram recuperadas e atualmente são analisadas em laboratórios da UnB, da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade da Flórida. Amostras também foram encaminhadas ao Instituto Max Planck, na Alemanha, para estudos de DNA antigo e resíduos encontrados em recipientes cerâmicos.

As pesquisas combinam osteologia, genética, análise de isótopos estáveis, arqueobotânica, geoarqueologia e estudos de materiais cerâmicos e líticos. A expectativa é reconstruir aspectos do modo de vida das populações que utilizaram a gruta como espaço de moradia e sepultamento.
Uma das principais possibilidades é identificar, por meio do DNA antigo, uma eventual continuidade genética entre as populações enterradas na Gruta do Gentio II e povos Macro-Jê atuais. Para os pesquisadores, uma confirmação poderia representar uma evidência relevante da continuidade histórica indígena no Brasil Central.
Sítio-escola une pesquisa e comunidades
A UnB coordena as atividades científicas, formativas e de articulação comunitária do Phibra, desenvolvido em parceria com a USP e a Universidade da Flórida, além de instituições como a Universidade Federal do Pará (UFPA).
O projeto funciona também como sítio-escola, reunindo estudantes, pesquisadores e comunidades indígenas em atividades de campo, laboratório e extensão. A cada campanha, cerca de 20 estudantes de graduação e pós-graduação aprendem técnicas de escavação, registro tridimensional, fotogrametria, curadoria e análise de materiais arqueológicos.
A iniciativa prevê ainda a participação de comunidades indígenas na interpretação dos vestígios e na discussão sobre a preservação dos sítios e o destino dos acervos. Para os pesquisadores, a Gruta do Gentio II é um patrimônio de grande importância e necessita de um programa permanente de pesquisa e conservação, com financiamento de longo prazo.
Referência da notícia
UNB. (2026). Pesquisadores da UnB fazem novas investigações em sítio arqueológico que abriga a única múmia do Brasil.