Novo estudo confirma colisão extraterrestre no Brasil a partir de vidro formando no impacto

Descoberta em Minas Gerais revela o primeiro campo brasileiro de objetos formados em colisão extraterrestre que foram chamados de geraisitos.

Descoberta em Minas Gerais revela geraisitos, vidros formados por impacto, mostrando uma colisão extraterrestre ocorrida no passado geológico da região. Crédito: Crósta et al. 2026
Descoberta em Minas Gerais revela geraisitos, vidros formados por impacto, mostrando uma colisão extraterrestre ocorrida no passado geológico da região. Crédito: Crósta et al. 2026

Um impacto extraterrestre acontece quando um corpo de origem astronômica, como um asteroide ou meteoro, colide com a superfície da Terra. Esses eventos acabam liberando grande quantidade de energia em um intervalo curto e, por causa dessa, gera pressões e chega até temperaturas suficientes para fundir e vaporizar rochas da crosta. O termo “extraterrestre” é associado apenas com a procedência do objeto fora do planeta e não está relacionado à presença de vida alienígena.

Durante esses impactos de alta energia, parte do material terrestre é derretida e ejetada a grandes distâncias. Ao se resfriar durante a trajetória que no qual foi ejetado ou após retornar ao solo, esse material forma vidros naturais conhecidos como tectitos. Como o resfriamento é rápido, não há tempo para cristalização, resultando em estruturas vítreas com composição semelhante à das rochas locais mas com características físicas associadas a um processo de choque.

Recentemente, pesquisadores identificaram no estado de Minas Gerais um conjunto de tectitos que caracteriza um novo tipo de propriedade desses objetos. As amostras apresentam evidências geoquímicas e estruturais compatíveis com formação por impacto de algo extraterrestre, ou seja, de fora da Terra. Esses objetos foram denominados “geraisitos” como uma homenagem ao estado de Minas Gerais, onde foram encontrados.

Vidro de colisão

Vidros de impacto são materiais naturais formados quando um corpo extraterrestre colide com a superfície da Terra e libera grande quantidade de energia em curto intervalo de tempo. A energia do impacto gera temperaturas muito elevadas e pressões intensas, capazes de fundir instantaneamente as rochas da crosta. Parte desse material fundido pode ser ejetada para fora da cratera, iniciando um processo de resfriamento já durante a trajetória.

Durante o resfriamento, a queda abrupta de temperatura impede a organização dos minerais em estruturas cristalinas.

Como resultado desse processo, o material solidifica-se na forma de vidro natural com a composição final dependendo do tipo de rocha fundida e das condições físicas do evento. Esses vidros podem ser encontrados próximos à área de impacto ou distribuídos a grandes distâncias, dependendo da energia envolvida durante a colisão. Esses vidros são evidências geológicas de colisões extraterrestres, permitindo reconstruir a intensidade do impacto, as condições térmicas atingidas e a dinâmica de ejeção do material.

Descoberta

Os geraisitos foram encontrados em cidades do norte de Minas Gerais e a presença deles está distribuída ao longo de uma faixa de 90 quilômetros. Mais tarde, os pesquisadores encontraram esses objetos também na Bahia e no Piauí, isso aumentou a faixa para 900 quilômetros. Essa distância é compatível com o padrão observado em outros campos de tectitos ao redor do mundo e ela depende da energia do impacto e das condições de ejeção do material fundido.

Mais de 600 fragmentos desse vidro já foram encontradas nessa faixa de 900 quilômetros constituindo amostras de evidência dessa colisão no passado. Essas amostras variam de menos de 1 grama até quase 100 gramas com tamanho alcançando cerca de 5 centímetros. Embora apresentem coloração preta e opaca, tornam-se translúcidas quando são colocados sob luz intensa. Suas superfícies escuras possuem cavidades que foram formadas quando ocorreu liberação de bolhas de gás durante o resfriamento rápido do material.

Onde está a cratera?

Como esses vidros são formados durante uma colisão, é esperado que tenha uma cratera associada em algum local próximo. No entanto, no caso dos geraisitos, nenhuma cratera foi encontrada. No entanto, os pesquisadores acreditam que a cratera está na região do Cráton do São Francisco. Essa região é uma das mais antigas da crosta sul-americana e segue como principal candidata para a fonte do impacto.

Os geraisitos apresentam diferentes tamanhos, com fragmentos que vão de poucos gramas até quase 100 gramas, refletindo a energia do impacto. Crédito: Crósta et al. 2026
Os geraisitos apresentam diferentes tamanhos, com fragmentos que vão de poucos gramas até quase 100 gramas, refletindo a energia do impacto. Crédito: Crósta et al. 2026

Embora ainda não seja possível estimar com precisão o tamanho do corpo que colidiu com a Terra, a grande quantidade de material fundido e a área de dispersão indicam um evento energético. Agora, os pesquisadores desse estudo estão realizando simulações para estimar parâmetros como energia liberada, velocidade e ângulo de entrada, além do volume de rocha fundida. A identificação dos geraisitos reforça a ideia de que tectitos podem ser mais comuns do que se achava, mas frequentemente são confundidos com vidro comum.

Propriedades encontradas

Um dos principais pontos do estudo é a análise da geoquímica das amostras encontradas que possuem uma quantidade alta de silício. Além disso, há presença de óxidos de sódio e potássio com valores maiores aos observados em outros tectitos. Variações em alguns elementos, como cromo e níquel, sugerem que o material de origem não era quimicamente homogêneo. A presença de uma estrutura rara de silício indica que o material só pode ter sido formado por um evento de impacto de alta energia.

Um dos critérios decisivos para classificar o material como tectito foi a pouca quantidade de água. A pouca quantidade de água acaba descartando a possibilidade do vidro ser formado por atividade vulcânica, como a obsidiana, que normalmente contêm mais água. A datação do material indica que o evento aconteceu há cerca de 6.3 milhões de anos, no final do Mioceno. Isso coloca uma idade máxima e onde procurar mais evidências desse impacto que originou essas estruturas.

Referência da notícia

Crósta et al. 2026 Geraisite: The first tektite occurrence in Brazil Geology