Transição para o El Niño já começou; saiba o que esperar

Modelos climáticos apontam para uma rápida transição para El Niño ainda no primeiro semestre de 2026, com possibilidade de resposta atmosférica ainda no inverno.

Na imagem, anomalia de temperatura da superfície do mar em um dia de outubro durante o último episódio de El Niño em 2023. Créditos: NASA Worldview.
Na imagem, anomalia de temperatura da superfície do mar em um dia de outubro durante o último episódio de El Niño em 2023. Créditos: NASA Worldview.

Como antecipado pela Meteored, o Oceano Pacífico equatorial já vem aquecendo. A NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) continua mostrando um mostrando um resfriamento prolongado do Pacífico através do seu novo índice RONI, implementado desde o início de fevereiro para identificar as fases do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENSO), composto por El Niño, La Niña e neutralidade.

Porém, a tendência de temperatura da superfície do mar (TSM) dos últimos 30 dias mostra que as águas do Pacífico central estão esquentando rapidamente.

Além disso, alguns modelos apontam que uma transição para El Niño pode ocorrer ainda entre março-abril-maio, com um aquecimento acelerado do oceano a partir de abril. A seguir, vamos conferir o último boletim da NOAA, o que dizem os modelos e o que esperar dos próximos meses.

NOAA prevê neutralidade nos próximos meses

O último boletim publicado pela NOAA continua indicando condições de La Niña presentes, com anomalia de TSM de -0.7ºC na região de monitoramento do Niño 3.4 na última semana. Enquanto as regiões do Niño 4 e Niño 3 registraram -0.1ºC e -0.4ºC, respectivamente, o Niño 1+2 já alcança +0.5ºC, indicando a presença de um El Niño Costeiro.

Além disso, o boletim também mostra que uma bolha de água quente vem se intensificando nas águas subsuperficiais (300 metros de profundidade) e emergindo em direção à superfície.

Anomalias de TSM nas regiões de monitoramento do ENSO (esquerda), regiões de monitoramento (direita, acima), anomalia de TSM na camada subsuperficial (direita, embaixo). Créditos: Adaptado de CPC/NOAA.
Anomalias de TSM nas regiões de monitoramento do ENSO (esquerda), regiões de monitoramento (direita, acima), anomalia de TSM na camada subsuperficial (direita, embaixo). Créditos: Adaptado de CPC/NOAA.

Mesmo com os sinais de aquecimento, segundo a NOAA há cerca de 60% de probabilidade da neutralidade predominar entre fevereiro e agosto. De acordo com a agência, as chances de El Niño superar a neutralidade ocorreriam apenas a partir de julho-agosto-setembro.

Probabilidade de ocorrência de La Niña (azul), El Niño (vermelho) e neutralidade (cinza), de acordo com o IRI/CPC/NOAA. Créditos: CPC/NOAA.
Probabilidade de ocorrência de La Niña (azul), El Niño (vermelho) e neutralidade (cinza), de acordo com o IRI/CPC/NOAA. Créditos: CPC/NOAA.

É importante destacar que as probabilidades informadas neste gráfico levam em conta a interpretação dos cientistas da NOAA sobre os modelos. A seguir, vamos analisar o que dizem os modelos.

Conjunto de modelos aponta para rápido aquecimento

A pluma de modelos de previsão do ENSO do International Research Institute for Climate and Society (IRI), no gráfico abaixo, mostra em linhas mais espessas a média (ensemble) da previsão dos modelos dinâmicos (rosa) e estatísticos (verde).

Aqui podemos observar que os modelos estatísticos alcançariam limiar de El Niño (anomalias de TSM superiores a +0,5°C) a partir de junho-julho-agosto, corroborando com a análise da NOOA.

Porém, estudos já demonstraram que os modelos dinâmicos, que se baseiam em equações físicas que regem a atmosfera, têm melhor desempenho em prever El Niño e, de acordo com o ensemble dos modelos dinâmicos, um evento El Niño pode tomar forma já em abril-maio-junho.

Projeção de anomalias de TSM na região do Niño 3.4 dos modelos do ENSO com rodada iniciada em fevereiro de 2026. Créditos: IRI.
Projeção de anomalias de TSM na região do Niño 3.4 dos modelos do ENSO com rodada iniciada em fevereiro de 2026. Créditos: IRI.

Além disso, quando analisamos alguns modelos individualmente, como os próprios NASA GMAO e o NCEP CFSv2, dos Estados Unidos, notamos que o aquecimento que vem sendo projetado pode ser rápido, com limiar de fase quente do ENSO a partir de março-abril-maio, o que também corrobora com o modelo ECMWF, de confiança da Meteored.

Aqui, novamente, é importante relembrar que o modelo dinâmico ECMWF, um dos mais importantes do mundo, foi removido do conjunto de modelos do IRI no ano passado. Isso quer dizer que, as projeções de aquecimento não levam em conta este modelo, que também está projetando aquecimento rápido, se intensificando a partir de abril.

ECMWF indica El Niño no primeiro semestre

O modelo ECMWF prevê condições de El Niño a partir do trimestre de março-abril-maio (MAM, mapa abaixo), com anomalias entre 0,5°C e 2°C entre as regiões Niño 3.4 e Niño 1+2.

Quando analisamos a evolução mensal dessa previsão, observa-se um rápido aquecimento a partir de abril, se intensificando entre maio e junho, o que indicaria a transição para condições de El Niño já no início do outono austral.

Previsão de anomalia de TSM no trimestre de março-abril-maio (superior) e mês a mês entre Março e Junho, de acordo com o ECMWF. Créditos: Adaptado de ECMWF/C3S.
Previsão de anomalia de TSM no trimestre de março-abril-maio (superior) e mês a mês entre Março e Junho, de acordo com o ECMWF. Créditos: Adaptado de ECMWF/C3S.

Este padrão também é observado pelo produto chamado 'multi model ensemble' disponibilizado pela página do Copernicus/C3S, que considera uma média de 8 modelos globais ao redor do mundo.

O que esperar?

Caso o aquecimento a nível de El Niño se confirme até o outono, a atmosfera pode passar a responder às condições de aquecimento já no inverno de 2026. Isso significa, principalmente, temperaturas acima da média, com menos episódios de frio, principalmente mais intensos, além de maior frequência de frentes frias no Sul do Brasil, favorecendo períodos chuvosos persistentes. Em contraste, a Amazônia e parte do Nordeste tendem a apresentar redução das chuvas e aumento da duração da estação seca.

Como o aquecimento já aparece de forma significativa na região Niño 1+2, o fenômeno pode inicialmente assumir características de El Niño costeiro antes de se consolidar no Pacífico central. Nesses casos, os efeitos no centro-sul do país costumam ser mais irregulares no começo do outono, tornando-se mais típicos de El Niño apenas se o aquecimento avançar para a região Niño 3.4 nos meses seguintes.

Assim, os próximos dois a três meses serão decisivos: a persistência do aquecimento determinará se o Brasil terá apenas um evento costeiro de curta duração ou um El Niño plenamente desenvolvido influenciando o inverno de 2026.