Nevoeiro da Amazônia transporta microrganismos que podem regenerar a floresta
Estudo inédito revela que nevoeiros amazônicos carregam microrganismos vivos capazes de sobreviver, se reproduzir e contribuir para a regeneração da floresta ao dispersar nutrientes essenciais pelo ecossistema.

Uma pesquisa internacional inédita revelou que o nevoeiro que ocasionalmente cobre a Amazônia transporta microrganismos vivos com potencial de contribuir para a regeneração da floresta. O estudo envolveu 36 cientistas de diferentes áreas, incluindo biologia, química, física e meteorologia, de sete países.
Os pesquisadores identificaram, pela primeira vez, bactérias e fungos vivos em gotículas de neblina coletadas a mais de 40 metros de altura. Entre as espécies encontradas estão Serratia marcescens e Aspergillus niger, conhecidas por sua atuação na decomposição de matéria orgânica no solo.
Segundo o coordenador do estudo, o químico Ricardo Godoi, esses microrganismos podem ser transportados pelo nevoeiro e colonizar novas áreas. As gotículas funcionam como proteção contra radiação ultravioleta e desidratação, criando um ambiente favorável à sobrevivência.
Um habitat invisível acima da floresta
Embora a presença de microrganismos em nuvens e aerossóis já fosse conhecida, pouco se sabia sobre a vida microbiana em nevoeiros. Estudos anteriores indicavam aumento da diversidade microbiana em eventos de neblina, mas não comprovavam a presença de células vivas.

A descoberta foi possível graças a coletas realizadas no Observatório de Torre Alta da Amazônia, uma estrutura de 325 metros instalada em área preservada. As amostras foram obtidas durante a madrugada, quando o nevoeiro se forma devido ao resfriamento do ar úmido.
Com o nascer do sol, correntes de ar elevam a neblina acima da copa das árvores, permitindo que partículas e microrganismos sejam transportados. Esse fenômeno levou os pesquisadores a investigar se o nevoeiro poderia atuar como um “elevador biológico”.
Coletas em condições extremas revelam diversidade
Entre 2021 e 2023, foram realizadas quatro campanhas de coleta, totalizando 13 eventos de nevoeiro. As amostras foram analisadas inicialmente por citometria de fluxo, técnica que revelou concentrações entre 3,5 mil e 80 mil células por mililitro de água.
Os testes mostraram que muitas dessas células estavam metabolicamente ativas, com DNA intacto. Posteriormente, os microrganismos foram cultivados em laboratório, resultando na identificação de oito espécies de bactérias e sete de fungos.
A diversidade encontrada variou sem relação clara com as estações seca ou chuvosa. Para os cientistas, isso indica que o fenômeno pode ocorrer de forma constante, embora ainda sejam necessários mais estudos para compreender sua dinâmica.
Impactos ecológicos e incertezas científicas
Os pesquisadores sugerem que o transporte de microrganismos pelo nevoeiro pode ajudar a explicar a ampla distribuição de decompositores na floresta amazônica. Esses organismos são fundamentais para reciclar nutrientes e sustentar o crescimento vegetal.
Especialistas que não participaram da pesquisa reconhecem a relevância da descoberta, mas destacam que ainda não está claro o impacto direto desses microrganismos na decomposição. Há a possibilidade de que o principal efeito da neblina seja apenas fornecer umidade adicional.
Novas pesquisas e caminhos futuros
Para aprofundar o entendimento, cientistas propõem experimentos comparando diferentes condições de neblina, incluindo cenários com e sem microrganismos. A ideia é avaliar o papel específico desses organismos na decomposição da matéria orgânica.
Estudos anteriores do mesmo grupo já haviam mostrado que microrganismos atmosféricos podem contribuir com nutrientes essenciais, como nitrogênio, ferro e fósforo, transportados até a Amazônia por partículas e poeira de longas distâncias.
Agora, os pesquisadores planejam sequenciar o DNA presente nas amostras de nevoeiro e investigar a composição química das partículas associadas. A expectativa é revelar uma diversidade ainda maior de microrganismos e compreender melhor seu papel no equilíbrio do ecossistema amazônico.
Referências da notícia
Revista Fapesp. Nevoeiro da Amazônia transporta microrganismos que podem regenerar a floresta. 2026
Não perca as últimas novidades da Meteored e aproveite todos os nossos conteúdos no Google Discover, totalmente GRÁTIS
+ Siga a Meteored