Rios amazônicos: fósforo em excesso e metais sob alerta perto do polo industrial no Pará

Estudo com 41 anos de dados mostra que rios próximos ao polo industrial de Barcarena e Abaetetuba mantêm características amazônicas, mas já exibem fósforo em excesso, queda no oxigênio dissolvido e metais sob vigilância mais rígida.

Curso de água típico da Amazônia, onde fatores naturais e atividades humanas começam a interagir na qualidade da água.
Curso de água típico da Amazônia, onde fatores naturais e atividades humanas começam a interagir na qualidade da água.

Os rios da região de Barcarena e Abaetetuba, no Pará, continuam com a cara típica da Amazônia úmida: água quente, levemente ácida e fortemente influenciada pela chuva. Mas um estudo publicado na Scientific Reports mostra que esse retrato natural já convive com sinais claros de pressão humana, sobretudo no fósforo, no oxigênio dissolvido e em alguns metais que pedem vigilância constante.

O trabalho reuniu 41 anos de dados, de 1980 a 2021, para montar a primeira linha de base ambiental de longo prazo dessa área próxima ao polo industrial.

Isso importa porque, sem uma referência histórica sólida, fica muito mais difícil separar o que é variação natural dos rios amazônicos do que já é efeito acumulado de esgoto, urbanização e atividade industrial.

Água amazônica, mas com sinais de desgaste

Em vários aspectos, o comportamento da água ainda é o esperado para grandes rios da Amazônia oriental. A temperatura ficou perto de 29 °C, o pH médio foi de 6,8 e os sólidos dissolvidos permaneceram baixos, o que confirma um sistema diluído e fortemente renovado pelas vazões elevadas. Ao mesmo tempo, a área estudada combina crescimento urbano, pouca coleta e tratamento de esgoto e forte expansão industrial, um pano de fundo que ajuda a explicar por que alguns sinais de desgaste aparecem com força.

Orla urbana de Barcarena (PA), onde a expansão da cidade se conecta diretamente com os rios amazônicos da região.
Orla urbana de Barcarena (PA), onde a expansão da cidade se conecta diretamente com os rios amazônicos da região.

O dado que mais chama atenção nessa parte do estudo é a queda do oxigênio dissolvido ao longo do tempo. A média ainda ficou acima do mínimo legal, mas episódios de hipóxia, quando o oxigênio cai para níveis muito baixos, se tornaram mais frequentes na última década. Em linguagem simples, isso indica que o rio ainda respira, mas está fazendo mais esforço para lidar com a carga org��nica lançada no sistema.

Fósforo sobe e a pressão urbana aparece

Se há um elemento que resume o alerta do estudo, ele é o fósforo. A concentração de fósforo total ficou acima do limite para água doce e mostrou aumento ao longo da série histórica. O trabalho também encontrou uma relação nitrogênio/fósforo muito baixa, sinal de que o sistema está recebendo fósforo demais em comparação com outros nutrientes.

Em regiões tropicais, isso pode favorecer desequilíbrios na qualidade da água e reduzir a capacidade natural de recuperação dos rios.

Os autores destrincharam de onde vem essa pressão e o peso maior recai sobre fontes humanas:

  • o esgoto doméstico respondeu por 40% da carga de fósforo estimada;
  • o escoamento do solo contribuiu com 14%;
  • a drenagem urbana respondeu por 10%, reforçando o papel da expansão das cidades.

O problema fica mais claro quando se olha a infraestrutura local. O próprio artigo destaca que o tratamento de esgoto segue baixo na região, abaixo de 15% em parte do sistema analisado, ao mesmo tempo em que Barcarena e Abaetetuba passaram por crescimento populacional e expansão econômica nas últimas décadas. O resultado é um rio que recebe mais carga do que consegue assimilar com segurança.

Metais exigem leitura mais cuidadosa

Nem todo metal encontrado no estudo aponta automaticamente para poluição industrial recente. Ferro e alumínio, por exemplo, aparecem em níveis altos também por causa da geologia local, ligada à Formação Barreiras e aos solos muito lixiviados da região.

Ainda assim, ambos superaram limites legais em parte da série, embora tenham mostrado tendência de queda, o que sugere melhora gradual ou menor mobilização desses materiais ao longo do tempo.

O maior cuidado, segundo os autores, deve ficar com cádmio, chumbo e mercúrio. O cádmio permaneceu muito perto do limite legal, e o mercúrio também se aproximou do valor de referência para esse tipo de água. Além disso, o estudo mostra que a alcalinidade é baixa, o que reduz a capacidade de neutralizar alterações químicas no sistema.

Na prática, isso significa que esses rios não são apenas importantes: eles também são sensíveis. E, perto de um polo industrial, essa combinação transforma monitoramento contínuo em obrigação, não em detalhe técnico.

Referência da notícia

Environmental background in Amazonian rivers near the industrial pole, northern Brazil. 3 de abril, 2026. Rollnic, M., Noriega, C., Monteiro, S. et al.

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