Desmatamento altera regime de chuvas na Amazônia, aponta estudo

Estudo internacional aponta queda significativa das chuvas no sul da Amazônia devido ao desmatamento, enquanto dados recentes revelam avanço da exploração ilegal de madeira e alertas sobre riscos socioambientais crescentes.

Sul da Amazônia vem sofrendo com desmatamento e aumento de temperaturas. Crédito: Divulgação Blog Marcos Pedlowski
Sul da Amazônia vem sofrendo com desmatamento e aumento de temperaturas. Crédito: Divulgação Blog Marcos Pedlowski

Um novo estudo publicado na revista científica Nature Communications concluiu que o desmatamento generalizado na Amazônia ao longo das últimas quatro décadas provocou uma redução média de 11% ao ano nas chuvas em partes do sul do bioma. A pesquisa indica que a perda de cobertura florestal vem tornando o clima regional mais seco e instável.

Segundo os cientistas, a remoção da vegetação compromete o ciclo natural da água, afetando diretamente a formação de nuvens e a regularidade das precipitações.

Os pesquisadores analisaram dados satelitais coletados entre 1980 e 2019 e utilizaram modelos climáticos avançados para entender como o desmatamento interfere na circulação de umidade na atmosfera amazônica.

A floresta como “bomba d’água”

A Floresta Amazônica desempenha um papel essencial no equilíbrio climático da América do Sul. As árvores absorvem água do solo e liberam parte dessa umidade para a atmosfera por meio da evapotranspiração, processo que favorece a formação de nuvens e chuvas frequentes.

Esse mecanismo é frequentemente descrito pelos cientistas como uma “bomba d’água”, responsável por redistribuir a umidade em grandes extensões do continente. Quando a vegetação é removida, o sistema perde eficiência, reduzindo o volume de chuvas e elevando as temperaturas locais.

O estudo alerta que, se o desmatamento continuar nos níveis atuais, os impactos podem se intensificar, afetando a agricultura, o abastecimento de água e a biodiversidade não apenas da Amazônia, mas também de regiões vizinhas.

Avanço da exploração madeireira

Dados recentes reforçam a preocupação dos pesquisadores. Um levantamento da rede SIMEX, formada por ICV, Imaflora e Imazon mostra que os estados com maior exploração legal e ilegal de madeira entre agosto de 2023 e julho de 2024 estão no bioma amazônico.

Mato Grosso lidera o ranking, com cerca de 190 mil hectares explorados, seguido pelo Amazonas, com 46 mil hectares, e pelo Pará, com 43 mil hectares. A pressão sobre a floresta permanece alta, especialmente em áreas de difícil fiscalização.

A expansão de atividades ilegais e a pressão por uso da terra seguem como desafios centrais para a conservação do maior bioma tropical do mundo. Crédito: Divulgação O Liberal (PA)
A expansão de atividades ilegais e a pressão por uso da terra seguem como desafios centrais para a conservação do maior bioma tropical do mundo. Crédito: Divulgação O Liberal (PA)

No sul do Amazonas, o município de Lábrea ocupa a segunda posição no ranking de exploração ilegal, com 12,7 mil hectares de floresta afetados sem autorização. A atividade ameaça diretamente Territórios Indígenas, como a Terra Indígena Kaxarari, localizada entre Amazonas e Rondônia, onde 2.885 hectares foram explorados ilegalmente, segundo o site 18 Horas.

“Quando a exploração ilegal cresce em Terras Indígenas e Unidades de Conservação, isso indica fragilidade nos mecanismos de comando e controle”, afirmou Júlia Niero, analista técnica do Imaflora, destacando a recorrência do problema ao longo dos anos.

Alertas adicionais e decisões judiciais

Além do desmatamento, especialistas chamam atenção para outros riscos na região. Treze entidades científicas publicaram uma nota técnica alertando que a pavimentação da rodovia BR-319 pode aumentar o risco de transmissão de doenças, ao interferir em áreas próximas aos rios Purus e Madeira.

Já em Manicoré, também no sul do Amazonas, a Justiça condenou um homem pela derrubada irregular de mais de 454 hectares de floresta nativa. Ele recebeu multa de R$ 7,3 milhões e terá de apresentar um plano de recuperação ambiental, reforçando a responsabilização por crimes ambientais na região.

Referências da notícia

Instituto Humanitas Unisinos. Desmatamento reduziu chuvas no sul da Amazônia, conclui estudo. 2026