Inverno 2026 pode ser com El Niño: quais os impactos e chances de frio rigoroso

O Pacífico equatorial continua aquecendo e aumenta a chance de formação de El Niño nos próximos meses, podendo influenciar padrões de chuva e temperatura do inverno no Brasil.

A temperatura da superfície do mar no dia 8 de março de 2026 mostra o avanço de anomalias positivas da costa do Peru em direção ao Pacífico central. Créditos: NOAA Coral Reef Watch.
A temperatura da superfície do mar no dia 8 de março de 2026 mostra o avanço de anomalias positivas da costa do Peru em direção ao Pacífico central. Créditos: NOAA Coral Reef Watch.

Enquanto a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) ainda mantém condições presentes de La Niña em seu boletim semanal divulgado hoje (9), baseado no novo índice Niño relativo (RONI), o Oceano Pacífico continua mostrando sinais de aquecimento.

De acordo com o índice RONI, a região de monitoramento Niño 3.4 dos eventos ENOS (El Niño Oscilação-Sul, composto por El Niño, La Niña e neutralidade) voltou para -0,5°C de anomalia de temperatura da superfície do mar (TSM), valor crítico que define um evento La Niña, devendo entrar no patamar de neutralidade nas próximas semanas.

Já na região Niño 1+2, próxima à costa do Peru, as anomalias já são de +0,6°C e, além disso, há uma bolha de água quente na camada subsuperficial (300 m de profundidade) se intensificando ao longo das últimas semanas e se deslocando em direção à superfície.

Anomalias de TSM por região de monitoramento (esquerda) e anomalias de temperatura subsuperficial equatorial (direita), com destaque para o fortalecimento da bolha quente nas duas últimas semanas. Créditos: Adaptado de CPC/NOAA.
Anomalias de TSM por região de monitoramento (esquerda) e anomalias de temperatura subsuperficial equatorial (direita), com destaque para o fortalecimento da bolha quente nas duas últimas semanas. Créditos: Adaptado de CPC/NOAA.

A este ponto, não há dúvidas de que um evento El Niño está a caminho em 2026. Embora seja numericamente difícil precisar quando a sua consolidação irá ocorrer, modelos dinâmicos apontam para o trimestre de abril-maio-junho.

Enquanto isso, o modelo ECMWF, de confiança da Meteored, já mostra respostas ao aquecimento nas previsões de temperatura e precipitação para o inverno de 2026 no Brasil. Confira os detalhes.

El Niño pode iniciar entre abril-maio-junho

O conjunto de modelos de previsão climática do IRI (International Research Institute for Climate and Society) considera, entre modelos dinâmicos e estatísticos, 23 modelos de diferentes centros ao redor do mundo.

No gráfico abaixo, a linha mais espessa em rosa representa a média (ensemble) dos modelos dinâmicos, baseados em equações físicas que descrevem a atmosfera, enquanto a linha em verde mostra a média para os modelos estatísticos, baseados no comportamento passado das séries históricas para identificar padrões e estimar o futuro.

Pluma de previsões de modelos do ENSO, destacando por uma linha pontilhada vermelha o limiar de El Niño e com um retângulo vermelho o trimestre onde o ensemble dos modelos dinâmicos ultrapassa este limiar. Créditos: Adaptado de IRI.
Pluma de previsões de modelos do ENSO, destacando por uma linha pontilhada vermelha o limiar de El Niño e com um retângulo vermelho o trimestre onde o ensemble dos modelos dinâmicos ultrapassa este limiar. Créditos: Adaptado de IRI.

Nota-se que o ensemble dos modelos dinâmicos, que possuem desempenho superior aos dinâmicos na previsão de El Niño, ultrapassa o limiar de El Niño, destacado por uma linha vermelha pontilhada, já no trimestre de abril-maio-junho.

Aqui é importante destacar que o modelo ECMWF, um dos mais importantes do mundo, foi removido deste conjunto de previsões em 2025, e ele também vem projetando um aquecimento acelerado do Pacífico nos próximos meses.

Caso a região do Niño 3.4 entre no limiar de El Niño ao longo de abril-maio-junho, a resposta atmosférica a este aquecimento pode ser sentida já no inverno. Como veremos a seguir, a previsão sazonal do ECMWF para temperatura e precipitação em junho-julho-agosto mostra um padrão de El Niño.

O que esperar do inverno em 2026?

De acordo com a previsão sazonal do modelo ECMWF para junho-julho-agosto, o inverno de 2026 será de temperaturas acima da média no Brasil. A maior parte do território deve ter temperaturas entre 0,5°C e 1°C acima da média, e áreas com até 2°C acima da média, como no oeste da região Centro-Oeste e numa área entre o Nordeste e norte do Sudeste.

Previsão de anomalia de temperatura para o trimestre de junho-julho-agosto, de acordo com o ECMWF. Créditos: ECMWF.
Previsão de anomalia de temperatura para o trimestre de junho-julho-agosto, de acordo com o ECMWF. Créditos: ECMWF.

Já em relação à precipitação, o padrão clássico dos anos de El Niño é o aumento das chuvas na Região Sul e diminuição na Região Norte/Nordeste. Nas demais regiões, o sinal do El Niño sobre a precipitação é muito menor, podendo ter chuvas acima ou abaixo da média.

Isso pode ser visto na previsão do ECMWF, que destaca chuvas de até 100 mm acima da média ao longo do inverno na Região Sul, com déficit hídrico no Norte e também no litoral do Nordeste.

Previsão de anomalia de precipitação para o trimestre de junho-julho-agosto, de acordo com o ECMWF. Créditos: ECMWF.
Previsão de anomalia de precipitação para o trimestre de junho-julho-agosto, de acordo com o ECMWF. Créditos: ECMWF.

Vale destacar que a previsão de temperaturas acima da média não significa ausência de frio. As projeções sazonais indicam uma tendência média para todo o trimestre, mas isso não impede a ocorrência de episódios de queda acentuada de temperatura ao longo do inverno.

Mesmo em anos mais quentes que o normal, massas de ar polar podem avançar pelo Brasil e provocar períodos de frio, geadas e até eventos mais intensos em alguns momentos.

Além disso, o padrão atmosférico associado ao El Niño costuma reduzir a frequência de avanços de sistemas frontais e massas de ar frio pelo interior do país, deixando essas incursões mais restritas à Região Sul. Ainda assim, a atmosfera não segue um comportamento totalmente linear: quando ocorrem quebras nesse padrão, massas de ar polar mais intensas podem avançar pelo continente.

Na prática, isso significa que o inverno pode ter menos episódios de frio ao longo da estação, mas com potencial para incursões pontualmente mais intensas quando elas ocorrem, especialmente durante eventos de quebra do padrão atmosférico.