Conexão entre florestas e rios fortalece defesa natural de anfíbios contra fungo letal
Pesquisa conduzida na Mata Atlântica revela que a ligação entre áreas florestais e corpos d’água favorece bactérias protetoras na pele de anfíbios, reduzindo infecções causadas por um dos fungos mais devastadores do planeta.

Um estudo internacional com participação de pesquisadores brasileiros revelou que a preservação da conexão entre florestas e ambientes aquáticos desempenha papel decisivo na proteção de anfíbios contra doenças fatais. Publicada em maio na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, a pesquisa mostra que a resistência de rãs e sapos ao fungo Batrachochytrium dendrobatidis (Bd) depende não apenas da genética dos animais, mas também da composição do microbioma presente em sua pele.
O fungo Bd é considerado um dos patógenos mais destrutivos já registrados entre vertebrados, responsável pelo declínio populacional e até extinção de centenas de espécies de anfíbios em diferentes regiões do planeta. Segundo os pesquisadores, a fragmentação ambiental causada pelo desmatamento e pela expansão humana dificulta o contato dos anfíbios com bactérias benéficas que ajudam a combater o fungo.
A investigação analisou o fenômeno conhecido como habitat split, caracterizado pela separação física entre áreas florestais e corpos d’água. Muitas espécies de anfíbios dependem diretamente dessa conexão para completar seu ciclo de vida, utilizando ambientes aquáticos para reprodução e áreas florestais para a fase adulta.
Pesquisa analisou 586 anfíbios na Mata Atlântica
O trabalho foi liderado pelos cientistas Daniel Medina e Renato A. Martins, com participação de Guilherme Becker e Célio Haddad. Haddad também coordena cientificamente o Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Os pesquisadores coletaram amostras da pele de 586 rãs pertencentes a quatro espécies da Mata Atlântica no Estado de São Paulo. Com o auxílio de técnicas avançadas de sequenciamento genético, foi possível identificar quais bactérias estavam presentes na pele dos animais e verificar sua capacidade de inibir o crescimento do fungo.
As informações foram comparadas com o banco de dados AmphiBac, que reúne mais de 7.800 isolados bacterianos previamente testados em laboratório. Em seguida, a equipe mediu a carga de infecção por Bd em cada animal e avaliou características da paisagem ao redor, como cobertura florestal, densidade das bordas dos fragmentos e distância entre florestas e corpos d’água.
Fragmentação reduz bactérias protetoras
Os resultados indicaram uma forte relação entre a desconexão ambiental e a redução de bactérias benéficas. Em regiões com maior separação entre florestas e ambientes aquáticos, houve queda significativa na presença de microrganismos capazes de combater o Bd.
O estudo também apresenta evidências do chamado “princípio do microbioma adaptativo”. De acordo com essa hipótese, a exposição frequente e moderada ao fungo em ambientes preservados ajuda a selecionar comunidades bacterianas mais eficientes na defesa contra futuras infecções. Quando a conectividade ambiental é interrompida, os anfíbios deixam de ter contato com fontes naturais desses microrganismos protetores.
Conservação ambiental e saúde dos ecossistemas
Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de políticas voltadas à reconexão de habitats naturais, especialmente em áreas afetadas pelo desmatamento. Segundo Célio Haddad, a pesquisa demonstra que ecossistemas preservados e integrados favorecem populações mais saudáveis de anfíbios e ajudam a manter o equilíbrio ambiental.
O pesquisador destaca ainda que os anfíbios funcionam como importantes indicadores da qualidade ambiental. Alterações na saúde dessas espécies podem sinalizar problemas mais amplos nos ecossistemas, incluindo impactos que afetam diretamente a própria população humana.
Os cientistas defendem que estratégias de restauração florestal e proteção de corredores ecológicos sejam incorporadas às políticas de conservação. Para eles, garantir a conexão entre rios, lagos e áreas de floresta é essencial não apenas para a sobrevivência dos anfíbios, mas também para a manutenção da biodiversidade e da estabilidade ecológica.
Referências da notícia
Agência Fapesp. Conexão entre florestas e rios fortalece microbioma de anfíbios e os protege contra fungo letal. 2026
Não perca as últimas novidades da Meteored e aproveite todos os nossos conteúdos no Google Discover, totalmente GRÁTIS
+ Siga a Meteored