Areais do Pampa ajudam a abastecer Aquífero Guarani e recebem chuvas vindas da Amazônia

Formações arenosas antes associadas à degradação ajudam a filtrar água e abastecer o Aquífero Guarani, enquanto pesquisas revelam conexão entre esses ecossistemas, a Amazônia e o Oceano Atlântico.

Professores e estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em São Francisco de Assis. Crédito: Alina Souza
Professores e estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em São Francisco de Assis. Crédito: Alina Souza

Durante décadas, os areais do sudoeste do Rio Grande do Sul foram tratados como áreas degradadas que deveriam ser recuperadas. Pesquisas mostram, porém, que parte dessas formações existe há milhares de anos e constitui um ecossistema próprio, com papel importante na biodiversidade e no ciclo da água do Pampa.

Distribuídos por dez municípios gaúchos, os areais naturais integram um complexo sistema que conecta Amazônia, Oceano Atlântico, Pampa e Sistema Aquífero Guarani (SAG). Em São Francisco de Assis e nos demais municípios onde ocorrem essas formações, cerca de 25% das chuvas têm origem direta ou indireta na Amazônia, enquanto outros 14% da umidade vêm do Atlântico.

Parte dessa água encontra nos solos arenosos um caminho para o subsolo. Medições realizadas pelo geógrafo Jean Carlo Caneppele indicam que aproximadamente 14% da precipitação que chega aos areais contribui para a recarga do Aquífero Guarani. Como essas áreas preservadas não recebem agrotóxicos, a água também passa por um processo natural de filtragem antes da infiltração.

Ecossistemas existem há milhares de anos

A interpretação dos areais começou a mudar a partir da década de 1980. Pesquisas lideradas pela geógrafa Dirce Suertegaray mostraram que essas formações não representam necessariamente desertificação. Algumas já existiam antes da expansão da agricultura e foram registradas inclusive em documentos históricos.

Solo arenoso em plantação de eucalipto de Manoel Viana. Crédito: Alina Souza
Solo arenoso em plantação de eucalipto de Manoel Viana. Crédito: Alina Souza

Estudos posteriores reforçaram essa conclusão. Um areal de São Francisco de Assis, por exemplo, foi datado em aproximadamente 15 mil anos. Pesquisadores explicam que as formações podem aumentar ou diminuir conforme períodos de seca e umidade, em uma dinâmica descrita como uma espécie de “pulsação”.

Atualmente, os areais ocupam cerca de 5 mil hectares no sudoeste gaúcho e abrigam espécies adaptadas aos ambientes arenosos. A biodiversidade reforça a proposta de pesquisadores para que essas áreas sejam reconhecidas como prestadoras de serviços ambientais e incorporadas a políticas de conservação.

Mudanças climáticas trazem novos riscos

A conservação dessas formações ganha importância diante das mudanças climáticas. Análises de dados de 37 estações pluviométricas entre 1940 e 2024 identificaram tendência de aumento das chuvas anuais, do volume máximo registrado em um único dia e da frequência de temporais extremos na região.

Chuvas mais intensas podem acelerar processos erosivos em solos frágeis, especialmente em áreas submetidas a manejo inadequado. Ravinas e voçorocas podem transportar grandes quantidades de areia e sedimentos, contribuindo para novos focos de arenização.

Diante dessas descobertas, pesquisadores defendem uma mudança de perspectiva: em vez de combater indiscriminadamente os areais, é necessário distinguir formações naturais de áreas degradadas e preservar aquelas que desempenham funções ecológicas. Estimativas apontam que apenas os serviços de filtragem e recarga hídrica dessas áreas poderiam representar até R$ 11,3 milhões por ano.

Referência da notícia

Correio do Povo. (2026). Ecossistema único, areais do Rio Grande do Sul estão conectados às chuvas da Amazônia.