Atlântico avança sobre a costa e transforma vida na foz do Amazonas
Elevação do nível do mar, marés mais intensas e mudanças no regime de chuvas alteram ecossistemas, pesca e comunidades costeiras na região onde o Amazonas encontra o Atlântico.

O avanço do Oceano Atlântico está transformando a paisagem e o cotidiano das comunidades que vivem na foz do rio Amazonas. Uma análise realizada com dados de 1995 a 2025 indica que o nível do mar subiu, em média, 12,4 centímetros na região em três décadas, intensificando processos de erosão, alagamento e salinização.
A mudança é especialmente perceptível no Amapá, onde a costa extremamente plana está exposta às chamadas “marés lançantes”, que avançam sobre áreas habitadas. Na praia do Goiabal, casas, pousadas e estruturas turísticas já foram destruídas. Muitos moradores deixaram o local, onde hoje permanecem principalmente famílias ligadas à pesca.
Osiel Barbosa Balieiro, conhecido como Bicudinho, vive há 32 anos no Goiabal e acompanha de perto as transformações. Segundo ele, as grandes marés tornaram-se mais frequentes a partir de 2013. A pesca também funciona como indicador das mudanças: espécies marinhas aparecem quando a água salgada avança, enquanto peixes de água doce predominam quando o Amazonas ganha força.
Marés mais altas e duradouras
A análise conduzida pelo pesquisador Guilherme Couto, com base em um modelo do Serviço do Ambiente Marinho Copernicus, aponta aumento médio de 4,13 milímetros por ano no nível do mar entre 1995 e 2025. Os dados mostram ainda que as inundações costeiras críticas estão ficando mais prolongadas, com crescimento estimado de 3,8 meses de duração a cada década.
Um levantamento publicado em 2025 pelo Centro de Pesquisas da Biodiversidade Marinha da Região Norte (Cepnor/ICMBio) identificou 3.286 espécies na região da foz, das quais 67 apresentam algum grau de ameaça de extinção. A biodiversidade sustenta também uma importante economia pesqueira, envolvendo comunidades artesanais e embarcações industriais.
Mudanças climáticas afetam equilíbrio entre rio e mar
Pesquisadores apontam que as mudanças climáticas estão intensificando o ciclo hidrológico amazônico, tornando períodos de chuva e seca mais extremos. O aquecimento do Atlântico aumenta a quantidade de vapor na atmosfera, enquanto alterações na vazão do Amazonas modificam a disputa entre água doce e salgada na região costeira.

O desmatamento pode agravar esse cenário. Modelagens ainda em revisão indicam que uma perda de 45% da vegetação amazônica poderia reduzir em até 50% a descarga de rios tributários do sul da bacia, diminuindo, no longo prazo, a força da água doce que chega ao oceano.
Para acompanhar essas transformações, pesquisadores do Amapá criaram o Observatório Popular do Mar (OMARA). Desde 2022, o projeto realiza medições em comunidades costeiras com participação dos próprios moradores, que registram erosão e frequência das grandes marés. A iniciativa busca combinar ciência e conhecimento local para compreender como a subida do Atlântico está redesenhando a vida na foz do maior rio do mundo.
Referência da notícia
InfoAmazônia. (2026). Atlântico avança sobre a costa e muda a vida na foz do Amazonas.