Amazônia perto do limite: estudo aponta que desmatamento pode antecipar risco climático
Novo estudo mostra que o desmatamento pode reduzir drasticamente o limite de segurança climática da Amazônia, aumentando o risco de degradação da floresta e afetando também a circulação de umidade que ajuda a sustentar chuvas no Brasil.

A Amazônia não funciona apenas como uma grande floresta tropical. Ela também atua como uma máquina de umidade, devolvendo vapor d’água à atmosfera e ajudando a manter o ciclo de chuvas dentro e fora da própria bacia. Quando parte dessa floresta é retirada, o impacto não fica limitado ao local desmatado: a atmosfera transporta menos umidade e áreas distantes podem receber menos chuva.

Um novo estudo publicado na Nature reforça que essa engrenagem pode estar mais vulnerável do que se pensava. A pesquisa indica que, sem considerar novos desmatamentos, um risco amplo de transição da floresta apareceria com aquecimento global entre 3,7 °C e 4,0 °C. Mas, ao incluir o avanço do desmatamento, o limite perigoso cai para cerca de 1,5 °C a 1,9 °C, quando combinado a 22% a 28% de perda florestal na bacia amazônica.
A floresta depende da própria umidade
Boa parte da chuva amazônica nasce dentro da própria floresta. As árvores retiram água do solo e devolvem essa umidade para a atmosfera pela transpiração. Esse vapor ajuda a formar novas chuvas, alimentando um ciclo que mantém a floresta úmida mesmo durante parte da estação seca. É como se a Amazônia ajudasse a fabricar parte da chuva que ela mesma precisa para sobreviver.

Quando a floresta é substituída por pastagens, áreas abertas ou paisagens degradadas, esse mecanismo perde força. Menos árvores significam menos evapotranspiração, menos reciclagem de umidade e maior risco de secas mais intensas. O problema é que essa perda não ocorre de forma isolada: uma área mais seca pode enfraquecer a chuva em outra região, abrindo caminho para um efeito em cadeia.
O limite cai quando a mata desaparece
O ponto mais importante do estudo é que o desmatamento antecipa o risco climático. A floresta poderia suportar níveis mais altos de aquecimento se permanecesse relativamente íntegra. Mas, quando a perda de vegetação avança, o sistema fica mais frágil e pode entrar em uma trajetória de degradação mesmo com aquecimento global mais baixo.
Na prática, o estudo aponta quatro mecanismos principais:
- menos floresta reduz a umidade devolvida para a atmosfera;
- a estação seca pode ficar mais intensa e prolongada;
- áreas degradadas deixam de alimentar chuvas em regiões vizinhas;
- os efeitos podem se propagar por centenas ou milhares de quilômetros.
Nos cenários severos analisados, a combinação de aquecimento e desmatamento pode levar a uma transição ampla, afetando entre 62% e 77% da área amazônica. Isso não significa que toda a floresta desapareceria de uma vez, mas indica perda de estabilidade e maior risco de substituição por ecossistemas mais secos, abertos e degradados ao longo do tempo.
O risco chega às chuvas do Brasil
A preocupação vai além da conservação da Amazônia. A umidade transportada pela floresta também influencia regiões agrícolas importantes da América do Sul, incluindo áreas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Quando essa circulação enfraquece, pode haver impacto sobre disponibilidade de água, regularidade das chuvas, produtividade agrícola e segurança hídrica.
Por isso, o estudo reforça uma mensagem direta: conter o desmatamento é uma medida climática urgente. Reduzir emissões globais continua sendo essencial, mas proteger e restaurar a floresta também ajuda a manter a própria capacidade da Amazônia de produzir umidade. Isso significa que a preservação amazônica não é apenas uma pauta ambiental distante; ela está ligada ao clima, à agricultura, à energia e à água que chegam a outras regiões do país.
Referência da notícia
Deforestation-induced drying lowers Amazon climate threshold. 6 de maio, 2026. Wunderling, N., Sakschewski, B., Rockström, J. et al.
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