Como a Via Láctea começou? Simulações sugerem uma origem surpreendente

A Via Láctea pode ter começado de uma forma muito diferente da estrutura espiral que observamos atualmente. Novas simulações sugerem que a região que deu origem à nossa galáxia era composta por milhares de pequenas galáxias.

Simulações do MEGATRON mostram como a Via Láctea chegou a ter a estrutura que observamos hoje. Crédito: Rey et al. 2026
Simulações do MEGATRON mostram como a Via Láctea chegou a ter a estrutura que observamos hoje. Crédito: Rey et al. 2026

Embora conheçamos em detalhes a estrutura atual da Via Láctea, ainda existem questões importantes sobre como suas componentes se formaram. Isso inclui o surgimento do disco galáctico, onde estão concentradas a maior parte das estrelas, além do bojo e do halo. Inclusive o Sistema Solar está localizado.

A formação de galáxias é, em grande parte, uma história de colisões, fusões e acreção de estruturas menores. No Universo jovem, pequenas concentrações de matéria cresceram pela gravidade e interagiram entre si, incorporando estrelas, gás e matéria escura.

Para investigar esse processo, pesquisadores realizaram simulações cosmológicas que acompanharam a evolução da região que viria a formar a Via Láctea. Os resultados sugerem que seu disco pode ter surgido a partir da fusão de milhares de galáxias menores, com diferentes propriedades e estágios evolutivos.

Estruturas da Via Láctea

A Via Láctea é uma galáxia espiral formada por diferentes componentes, incluindo um disco, um bojo central, um halo estelar e um halo de matéria escura. O disco concentra grande parte das estrelas, do gás e da poeira e apresenta uma estrutura espiral com braços onde ocorre intensa formação estelar.

Apesar de conhecermos essas estruturas, ainda não sabemos sobre como elas surgiram e evoluíram ao longo da história da galáxia.

Os braços espirais são difíceis de explicar porque não são estruturas estáticas: suas estrelas e nuvens de gás possuem diferentes velocidades e interagem gravitacionalmente. Modelos sugerem que ondas de densidade, interações gravitacionais e fusões com galáxias menores podem contribuir para sua formação e manutenção.

Interações com outras galáxias

A interação mais conhecida envolvendo a Via Láctea é com a galáxia de Andrômeda. No entanto, a Via Láctea não interage apenas com grandes galáxias: ela também é cercada por diversas galáxias menores e gravitacionalmente ligadas ao seu halo. Essas estruturas são continuamente perturbadas pela gravidade da Via Láctea.

As primeiras estrelas do Universo podem ter produzido grandes quantidades de ferro em suas explosões, deixando uma assinatura química nas galáxias. Crédito: Rey et al. 2026
As primeiras estrelas do Universo podem ter produzido grandes quantidades de ferro em suas explosões, deixando uma assinatura química nas galáxias. Crédito: Rey et al. 2026

Algumas dessas galáxias satélites já atravessaram regiões internas do halo e até o disco, deixando perturbações na distribuição e nos movimentos das estrelas. Com o tempo, a interação gravitacional e as forças de maré podem desestruturá-las, formando correntes estelares e, eventualmente, incorporando seu material à Via Láctea.

Novas simulações

Uma das principais formas de reconstruir sua evolução é com simulações cosmológicas. Os pesquisadores incorporaram ao modelo processos como gravidade e química, acompanhando milhares de estruturas desde os primeiros bilhões de anos até a formação de uma galáxia semelhante à Via Láctea.

Esse padrão pode preservar uma das pistas mais antigas sobre a formação das primeiras estrelas e o enriquecimento químico do Universo. Crédito: Rey et al. 2026
Esse padrão pode preservar uma das pistas mais antigas sobre a formação das primeiras estrelas e o enriquecimento químico do Universo. Crédito: Rey et al. 2026

Os resultados foram comparados com observações atuais, incluindo os dados obtidos pelo James Webb. A simulação revelou galáxias progenitoras, incluindo sistemas em intensa formação estelar, estruturas já inativas e outras em processo de transformação. Um resultado foi a previsão de sistemas sem estrelas.

Outra descoberta

As simulações também ajudaram a explicar um comportamento observado em galáxias extremamente pequenas e pouco luminosas. Em geral, galáxias de menor massa apresentam menor abundância de ferro, mas essa relação deixa de funcionar nos sistemas mais fracos.

O modelo sugere que esse padrão pode estar relacionado às explosões das primeiras estrelas do Universo, conhecidas como estrelas de População III. Essas estrelas eram formadas apenas por hidrogênio e hélio e algumas podem ter produzido ferro ao explodir.

Referência da notícia

Rey et al. (2026). MEGATRON: how the first stars can create an iron metallicity plateau in the smallest dwarf galaxies.