Resfriamento do Pacífico chega ao fim após 4 meses: mais um “La Niña” deve ficar fora dos registros

A temperatura da superfície do mar na região de monitoramento do fenômeno voltou a subir e retornou à anomalia de -0,5°C na última semana. Este limiar é um dos principais critérios que separa a fase fria do fenômeno El Niño Oscilação Sul (ENSO) da neutralidade.

Tendência de aquecimento da temperatura da superfície do mar diária nos últimos 7 dias na região do Niño 3.4. Créditos: CRW/NOAA.
Tendência de aquecimento da temperatura da superfície do mar diária nos últimos 7 dias na região do Niño 3.4. Créditos: CRW/NOAA.

O boletim de monitoramento do ENSO divulgado pela NOAA nesta quarta-feira (8) apenas confirma que as condições frias observadas nos últimos meses no Oceano Pacífico serão passageiras e não devem evoluir para um episódio clássico de La Niña.

Como a Meteored vem alertando reiteradamente, o evento atual não deve entrar para os registros oficiais. O cenário mais provável é de neutralidade climática com viés frio, com impacto limitado ou praticamente nulo sobre o clima do Brasil.

Essa avaliação está alinhada com a literatura científica e com as análises do time da Meteored Brasil: quando o resfriamento do Pacífico é fraco e de curta duração, seus efeitos atmosféricos tendem a ser mínimos.

Algumas análises recentes apontaram surpresa diante de padrões de precipitação no Brasil diferentes daqueles normalmente associados a um “La Niña clássica”. No entanto, essa discrepância não é inesperada: nem todo resfriamento do Pacífico equatorial caracteriza um La Niña. Para isso, há critérios técnicos bem estabelecidos, e a persistência é um dos mais importantes.

Região de monitoramento aquece e retorna a -0,5°C

As fases positiva (El Niño), negativa (La Niña) e neutra do fenômeno ENSO são monitoradas na região do Oceano Pacífico equatorial conhecida como Niño 3.4. Quando as anomalias de temperatura da superfície do mar (TSM) nesta região alcançam o valor de 0,5°C, positivo ou negativo, a comunidade científica entra em alerta, uma vez que este valor define quando o Pacífico pode sair da neutralidade - ou entrar.

No cenário atual:

  • Outubro de 2025 marcou o primeiro mês com anomalia de TSM dentro do limiar de La Niña;
  • O pico do resfriamento ocorreu em meados de Novembro de 2025, com -0,9°C;
  • Desde então, a anomalia vem enfraquecendo, retornando a -0,5°C na última semana.

Embora a média semanal da TSM, isoladamente, não seja suficiente para definir o início ou o fim de um evento ENSO, outros dados (observados e previstos) reforçam a tendência de aquecimento.

Um exemplo é a tendência linear dos últimos 30 dias da TSM (09/12/25 a 07/01/26), derivada de dados diários de satélite, que mostra aquecimento no Pacífico leste com propagação em direção ao Pacífico central.

Além disso, há uma bolha de água quente emergindo das águas subsuperficiais (450 m de profundidade) em direção à superfície.

Diante desse cenário, os cientistas da NOAA estimam pouco mais de 50% de chance de manutenção de condições de La Niña no trimestre Dezembro-Janeiro-Fevereiro, enquanto indicam 75% de probabilidade de neutralidade no trimestre Janeiro-Fevereiro-Março.

Probab
Probabilidade de ocorrência das fases do fenômeno ENSO, de acordo com os cientistas da NOAA. Créditos: CPC/NOAA.

Convenhamos: 50% é uma probabilidade que não nos diz muito, é praticamente um ‘cara ou coroa’.

O que dizem os modelos?

A rodada mais recente disponível dos modelos climáticos globais ainda é a de dezembro de 2025, baseada em condições observadas anteriormente a esse período. O conjunto C3S multi-system, disponibilizado pelo ECMWF, reúne a média de 9 modelos distintos disponibilizados. Ele ainda indica anomalias dentro do limiar de La Niña em Janeiro.

No entanto, a probabilidade de ocorrência do tercil inferior da TSM é baixa, o que sugere pouco suporte para um evento frio consistente. O tercil inferior representa os 33% dos valores mais baixos da TSM em comparação com o histórico.

Média da previsão (iniciada em dezembro/25) de anomalia de TSM de 9 modelos e de probabilidade de TSM < tercil mais baixo para Janeiro e Fevereiro. Créditos: Adaptado de ECMWF.
Média da previsão (iniciada em dezembro/25) de anomalia de TSM de 9 modelos e de probabilidade de TSM < tercil mais baixo para Janeiro e Fevereiro. Créditos: Adaptado de ECMWF.

Para Fevereiro, o mesmo conjunto de modelos já não indica predominância de anomalias abaixo de -0,5°C, e a probabilidade de ocorrência do tercil inferior da TSM cai para 10% a 20% na região do Niño 3.4

Mais um episódio de “La Niña” fora dos registros

Caso a anomalia de TSM retorne à neutralidade em Janeiro, Fevereiro ou até Março, não haverá persistência suficiente para que o resfriamento seja oficialmente classificado como uma La Niña - como alertado diversas vezes pela Meteored Brasil.

O critério internacional exige cinco trimestres móveis consecutivos com anomalias dentro do limiar, o que corresponde a aproximadamente sete meses de duração. Mesmo que a anomalia permaneça até Março, o resfriamento não ultrapassaria seis meses.

Para quem acompanha de perto as previsões climáticas, a ausência de um La Niña em 2025/2026 nunca foi uma surpresa. Desde as primeiras rodadas de previsão, os modelos indicavam um resfriamento fraco, próximo da neutralidade e de curta duração.

Em 2025, a NOAA chegou a declarar duas vezes a presença do fenômeno, contrariando seus próprios critérios técnicos, mas, mais uma vez, o episódio deve ficar fora dos registros oficiais.