No topo do Brasil, expedição avalia melhorias no acesso ao Pico da Neblina

Missão técnica na Amazônia reúne especialistas e indígenas para propor avanços na trilha, ampliar segurança, preservar ambiente e fortalecer protagonismo Yanomami na gestão do turismo sustentável no ponto mais alto brasileiro.

O Pico tem exatos 2.995,30 metros de altitude e está localizado no estado do Amazonas, na Serra do Imeri, fronteira com a Venezuela. Crédito: Cassiano Gatto/ICMBio
O Pico tem exatos 2.995,30 metros de altitude e está localizado no estado do Amazonas, na Serra do Imeri, fronteira com a Venezuela. Crédito: Cassiano Gatto/ICMBio

No coração da Amazônia, onde a floresta se mistura às nuvens, uma expedição técnica percorreu o Pico da Neblina, no Amazonas, com o objetivo de avaliar melhorias na trilha de acesso à montanha mais alta do Brasil. Conhecido pelos Yanomami como Yaripo, ou “Montanha dos Ventos”, o local possui não apenas relevância geográfica, mas também profunda importância espiritual e cultural.

A iniciativa foi conduzida por servidores do Parque Nacional do Pico da Neblina, com apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), por meio da Frente de Proteção e da Força-Tarefa Yanomami, além do Instituto Socioambiental (ISA). O objetivo principal foi realizar uma análise técnica detalhada do percurso e das estruturas existentes, visando aprimorar a experiência de visitação e as condições de trabalho dos indígenas envolvidos.

A equipe que participou da expedição foi formada por 33 pessoas, sendo 11 não indígenas e 22 Yanomami, que atuaram como condutores, carregadores e cozinheiros. A organização segue o modelo estabelecido pelo Plano de Visitação Yaripo Ecoturismo Yanomami, desenvolvido para ordenar o turismo na região e garantir protagonismo indígena.

Avaliação técnica e desafios da jornada

Entre os dias 26 de janeiro e 6 de fevereiro, o grupo enfrentou uma jornada de 12 dias marcada por condições climáticas adversas e intenso desgaste físico. Calor, frio, chuva constante, lama e terrenos íngremes fizeram parte do percurso até o cume, a quase 3 mil metros de altitude.

A subida envolve aproximadamente seis a oito dias de trilha pela floresta até alcançar o cume. Crédito: Leandro Eiró/ICMBio
A subida envolve aproximadamente seis a oito dias de trilha pela floresta até alcançar o cume. Crédito: Leandro Eiró/ICMBio

Durante a travessia, especialistas em infraestrutura de trilhas, segurança e impacto ambiental realizaram uma leitura técnica completa do trajeto. O foco principal foi identificar pontos críticos, especialmente no trecho final de ascensão, onde há maior risco de acidentes.

Além disso, dois montanhistas experientes, Ronaldo Franzen, conhecido como “Nativo”, e Tadeu de Oliveira, contribuíram com análises técnicas e ministraram um curso inédito de resgate em montanha para os Yanomami. A iniciativa representa um avanço na capacitação e autonomia desses profissionais.

Propostas de melhorias e próximos passos

A expedição resultou em uma série de propostas para aprimorar a infraestrutura da trilha. Entre elas, está a elaboração de três alternativas para o acampamento Base, localizado no sopé da montanha, com diferentes níveis de estrutura e investimento.Outra medida prevista é a instalação de cerca de 50 degraus no trecho final da trilha até agosto de 2026, além da reestruturação de sistemas de apoio, como cordas e correntes, para aumentar a segurança dos visitantes.

Também está planejado o uso de drones para mapear áreas impactadas pelo garimpo ilegal, especialmente na região conhecida como Bacia do Gelo. O levantamento permitirá avaliar os danos à vegetação e orientar ações de recuperação ambiental.

Por fim, serão atualizados os protocolos operacionais do plano de visitação, incluindo a distribuição de cargas transportadas pelos Yanomami, tradicionalmente feitas com o uso do jamanxim, e a organização logística das expedições.

Preservação e restrições no entorno

A expedição também abordou a situação do pico 31 de Março, segunda montanha mais alta do Brasil, localizada nas proximidades do Yaripo. Os especialistas recomendaram que a área não seja aberta à visitação turística.

Segundo a avaliação técnica, o local apresenta condições extremamente sensíveis, com ambiente praticamente intocado e alto risco de degradação. Além disso, há preocupações com a segurança dos visitantes, devido à dificuldade de acesso e ausência de infraestrutura.

Para os Yanomami, a preservação da região também possui caráter sagrado. Já do ponto de vista científico, a área pode servir como importante referência para estudos ambientais e monitoramento das mudanças climáticas, reforçando a necessidade de sua conservação integral.

Referências da notícia

ICMBio. No cume do Brasil: ICMBio e parceiros realizam expedição técnica para aprimorar acesso ao Pico da Neblina (AM). 2026