O primeiro carro do Brasil faz 70 anos, e o país ainda busca independência tecnológica

Setenta anos após o surgimento do Romi-Isetta, indústria automobilística brasileira revela avanços, desafios estruturais e a persistente busca por autonomia tecnológica e inovação sustentável no cenário global competitivo.

Brasília, 2 de fevereiro de 1960: o presidente Juscelino Kubitschek acena do Romi-Isetta claro (à esq.) durante uma caravana de veículos de fabricação nacional. Crédito: Revista Fapesp
Brasília, 2 de fevereiro de 1960: o presidente Juscelino Kubitschek acena do Romi-Isetta claro (à esq.) durante uma caravana de veículos de fabricação nacional. Crédito: Revista Fapesp

70 anos, o Brasil dava um passo decisivo rumo à industrialização com o lançamento do Romi-Isetta, primeiro automóvel de passeio produzido em série no país. Apresentado em 5 de setembro de 1956, o modelo foi fabricado em Santa Bárbara d’Oeste (SP) e desfilou pelas ruas da capital paulista como símbolo de modernidade.

A cerimônia contou com a bênção do cardeal Carlos Carmelo Motta, que destacou a importância da iniciativa para a independência econômica nacional. O projeto, embora baseado em um modelo italiano, já apresentava significativo índice de nacionalização para a época.

O lançamento ocorreu no contexto do governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), cujo Plano de Metas incentivava a industrialização e a instalação de montadoras no país, reduzindo a dependência de veículos importados desmontados.

O impulso da industrialização

Para acelerar esse processo, o governo criou o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (Geia), que estabeleceu metas progressivas de nacionalização. O Romi-Isetta já largou à frente, com cerca de 72% de seus componentes produzidos localmente.

Compacto, econômico e inovador, o veículo refletia tendências que só se consolidariam décadas depois, como a busca por eficiência energética. Ainda assim, suas limitações estruturais acabaram pesando contra sua permanência no mercado.

Com capacidade para apenas dois passageiros, o modelo não atendia às exigências do Geia para incentivos fiscais, voltados a carros maiores. Em 1961, a produção foi encerrada, marcando o fim precoce do pioneiro.

Crescimento e dependência tecnológica

Apesar disso, a indústria automobilística brasileira avançou rapidamente. Em 1960, o país já produzia cerca de 133 mil veículos, com alto índice de nacionalização, um salto considerado histórico na América Latina.

Entretanto, o modelo de desenvolvimento industrial de Kubitschek priorizou a atração de multinacionais, o que gerou dependência tecnológica. O Brasil se consolidou mais como montador do que como desenvolvedor de tecnologia automotiva.

Esse cenário também estimulou o chamado “rodoviarismo”, com foco em estradas e abandono das ferrovias, criando gargalos logísticos que ainda impactam o país.

Crises e inovação energética

Na década de 1970, o crescimento foi impulsionado pelo “milagre econômico”, mas sofreu impacto com a crise do petróleo de 1973. Em resposta, o governo lançou o Programa Nacional do Álcool (Proálcool).

Linha de produção do Fiat 147, o primeiro carro a álcool produzido em série no mundo. Crédito: Stellantis
Linha de produção do Fiat 147, o primeiro carro a álcool produzido em série no mundo. Crédito: Stellantis

O programa resultou no desenvolvimento do Fiat 147, primeiro carro movido a etanol produzido em série no mundo, destacando a capacidade de inovação do país.

Mesmo assim, nos anos 1980, a indústria enfrentou estagnação. Na década seguinte, a abertura econômica promovida por Fernando Collor de Mello expôs a defasagem tecnológica dos veículos nacionais.

O sonho do carro nacional

Nesse contexto, a Gurgel Motores tornou-se símbolo da tentativa de criar um automóvel genuinamente brasileiro. Fundada por João Amaral Gurgel, lançou o BR-800, com peças totalmente nacionais.

Apesar do pioneirismo, a empresa não resistiu à concorrência internacional e encerrou suas atividades nos anos 1990. Ainda assim, deixou um legado de inovação, incluindo iniciativas em veículos elétricos.

Décadas depois, o sonho ressurge com a Lecar, que desenvolve um carro híbrido com alta nacionalização. O projeto enfrenta forte concorrência global, especialmente da indústria chinesa.

Desafios e futuro da indústria

Especialistas apontam que o Brasil possui capacidade técnica, mas carece de políticas industriais consistentes. A continuidade de estratégias de longo prazo é vista como essencial para fortalecer o setor.

Nesse sentido, o governo lançou a política Nova Indústria Brasil, voltada à inovação e sustentabilidade, com investimentos bilionários e metas até 2033.

Setenta anos após o Romi-Isetta, o país segue em busca de um equilíbrio entre produção, tecnologia e autonomia. Um desafio que permanece central para o futuro da indústria automobilística nacional.

Referências da notícia

Revista Fapesp. Há 70 anos, nascia o primeiro carro brasileiro. 2026

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