O primeiro carro do Brasil faz 70 anos, e o país ainda busca independência tecnológica
Setenta anos após o surgimento do Romi-Isetta, indústria automobilística brasileira revela avanços, desafios estruturais e a persistente busca por autonomia tecnológica e inovação sustentável no cenário global competitivo.

Há 70 anos, o Brasil dava um passo decisivo rumo à industrialização com o lançamento do Romi-Isetta, primeiro automóvel de passeio produzido em série no país. Apresentado em 5 de setembro de 1956, o modelo foi fabricado em Santa Bárbara d’Oeste (SP) e desfilou pelas ruas da capital paulista como símbolo de modernidade.
A cerimônia contou com a bênção do cardeal Carlos Carmelo Motta, que destacou a importância da iniciativa para a independência econômica nacional. O projeto, embora baseado em um modelo italiano, já apresentava significativo índice de nacionalização para a época.
O lançamento ocorreu no contexto do governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), cujo Plano de Metas incentivava a industrialização e a instalação de montadoras no país, reduzindo a dependência de veículos importados desmontados.
O impulso da industrialização
Para acelerar esse processo, o governo criou o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (Geia), que estabeleceu metas progressivas de nacionalização. O Romi-Isetta já largou à frente, com cerca de 72% de seus componentes produzidos localmente.
Com capacidade para apenas dois passageiros, o modelo não atendia às exigências do Geia para incentivos fiscais, voltados a carros maiores. Em 1961, a produção foi encerrada, marcando o fim precoce do pioneiro.
Crescimento e dependência tecnológica
Apesar disso, a indústria automobilística brasileira avançou rapidamente. Em 1960, o país já produzia cerca de 133 mil veículos, com alto índice de nacionalização, um salto considerado histórico na América Latina.
Entretanto, o modelo de desenvolvimento industrial de Kubitschek priorizou a atração de multinacionais, o que gerou dependência tecnológica. O Brasil se consolidou mais como montador do que como desenvolvedor de tecnologia automotiva.
Esse cenário também estimulou o chamado “rodoviarismo”, com foco em estradas e abandono das ferrovias, criando gargalos logísticos que ainda impactam o país.
Crises e inovação energética
Na década de 1970, o crescimento foi impulsionado pelo “milagre econômico”, mas sofreu impacto com a crise do petróleo de 1973. Em resposta, o governo lançou o Programa Nacional do Álcool (Proálcool).

O programa resultou no desenvolvimento do Fiat 147, primeiro carro movido a etanol produzido em série no mundo, destacando a capacidade de inovação do país.
Mesmo assim, nos anos 1980, a indústria enfrentou estagnação. Na década seguinte, a abertura econômica promovida por Fernando Collor de Mello expôs a defasagem tecnológica dos veículos nacionais.
O sonho do carro nacional
Nesse contexto, a Gurgel Motores tornou-se símbolo da tentativa de criar um automóvel genuinamente brasileiro. Fundada por João Amaral Gurgel, lançou o BR-800, com peças totalmente nacionais.

Apesar do pioneirismo, a empresa não resistiu à concorrência internacional e encerrou suas atividades nos anos 1990. Ainda assim, deixou um legado de inovação, incluindo iniciativas em veículos elétricos.
Décadas depois, o sonho ressurge com a Lecar, que desenvolve um carro híbrido com alta nacionalização. O projeto enfrenta forte concorrência global, especialmente da indústria chinesa.
Desafios e futuro da indústria
Especialistas apontam que o Brasil possui capacidade técnica, mas carece de políticas industriais consistentes. A continuidade de estratégias de longo prazo é vista como essencial para fortalecer o setor.
Nesse sentido, o governo lançou a política Nova Indústria Brasil, voltada à inovação e sustentabilidade, com investimentos bilionários e metas até 2033.
Setenta anos após o Romi-Isetta, o país segue em busca de um equilíbrio entre produção, tecnologia e autonomia. Um desafio que permanece central para o futuro da indústria automobilística nacional.
Referências da notícia
Revista Fapesp. Há 70 anos, nascia o primeiro carro brasileiro. 2026
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