A gravidade da situação do Ártico em uma imagem

A Groenlândia perdeu em um dia cerca de 2 bilhões de toneladas de gelo. Apesar de parecer assustador, derretimentos desse porte já ocorreram antes. O que preocupa é o derretimento contínuo antecipado e as incertezas quanto as condições deste verão boreal.

Carolina Barnez Carolina Barnez 20 Jun. 2019 - 14:33 UTC
Foto tirada pelo pesquisador Steffen Olsen, do Instituto Dinamarquês de Meteorologia, no norte da Groenlândia do dia 13 de Junho de 2019. Créditos: Steffen Olsen

Durante esta semana circulou nas redes uma imagem que deixou muitas pessoas perplexas: cães na Groenlândia puxando um trenó sob uma camada de água, onde deveria haver gelo. A fotografia publicada pelo pesquisador Steffen Olsen na última quinta-feira (13) retratou o dia em Groenlândia perdeu 40% de sua cobertura de gelo, cerca de 2 bilhões de toneladas.

Um sistema de alta pressão sobre a região impulsionou o derretimento abrupto. A ausência de nuvens e consequente incidência direta do Sol, contribuíram para uma grande anomalia de temperatura, que chegou a 40ºF acima da média. Durante todo o verão boreal (no Hemisfério Norte) ocorre derretimento de parte do gelo Ártico, no entanto as maiores perdas normalmente são observadas apenas no meio da estação, em Julho.

Este derretimento antecipado está de acordo com a tendência geral observada no Ártico nos últimos anos, onde os efeitos do aquecimento global são amplificados. A data do início da estação de perda de volume de gelo está dentro da média esperada, mas o que preocupa os especialistas é que um derretimento gradual de gelo tem ocorrido desde o meio de Maio.

Além das condições do tempo, o que contribuiu para o derretimento antecipado foi o volume reduzido de neve que caiu no último inverno na porção norte da Groenlândia. A cobertura mais fina de neve derrete mais rápido e expõe o gelo abaixo, mais antigo e escuro, que absorve mais calor. O efeito ainda pode piorar quando a camada de gelo se torna água, que além de absorver mais calor, também o armazena. Dessa forma, se o derretimento continuar nesse ritmo, o início da estação de congelamento, normalmente em Setembro, será mais tardia este ano.

O que esperar?

A última vez que algo do tipo aconteceu foi em 2012, quando o Ártico bateu o recorde de derretimento e menor extensão de gelo. Com os acontecimentos recentes, acredita-se que 2019 tenha potencial de também entrar para a história. No entanto, especialistas dizem que a variabilidade do tempo na região é grande e tudo depende dos padrões que serão observados nos próximos meses. "Se o tempo ficar nublado, a taxa de derretimento poderá desacelerar. É difícil de prever", disse Zachary Labe, pesquisador da Universidade da California [Washington Post].

Martin Stendel, pesquisador do Instituto Dinamarquês de Meteorologia, ressalta a importância da Oscilação do Atlântico Norte (OAN), modo de variabilidade climática que controla as condições do tempo na região. "Se vermos uma sinal persistente positivo de OAN neste verão, como o que tivemos em 2018, o padrão de circulação atmosférica provavelmente interromperá o derretimento. No entanto, em 2019 a OAN tem tido sinal negativo desde o início de Maio". O sinal negativo da OAN favorece eventos de grande derretimento na Groenlândia, como o observado semana passada. Stendel ainda acrescenta: "A situação atual é muito similar a observada em 2012, quando houve uma grande tava de derretimento devido a um bloqueio atmosférico (sistema de alta pressão) sob a cobertura de gelo".

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