Super El Niño atinge 2,3°C, mas por que a NOAA fala em apenas 1,5°C? Entenda aqui
O Super El Niño 2026-27 alcançou 2,3°C de anomalia absoluta da temperatura do mar, enquanto o índice oficial da NOAA indica 1,5°C. A diferença entre esses valores não é um erro, mas revela como o aquecimento global vem mudando a forma de medir e interpretar a intensidade do fenômeno.

As temperaturas da superfície (TSM) do mar no Pacífico Equatorial continuam subindo e impressionando. Nos dados divulgados nesta segunda-feira (3) pela NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), as anomalias absolutas de TSM alcançaram 2,3°C na semana centrada no dia 29 de julho, enquanto as anomalias relativas já estão em 1,5°C, alcançando oficialmente a categoria de forte intensidade.
Afinal, por que dois índices que medem a mesma região do oceano apresentam valores diferentes? A resposta está na forma como essas anomalias são calculadas. Nos últimos anos, os oceanos vêm aquecendo de forma significativa em decorrência das mudanças climáticas, tornando cada vez mais importante distinguir o aquecimento associado ao El Niño daquele provocado pela elevação da temperatura média do planeta.
A seguir, entenda a diferença entre anomalias relativas e absolutas, como funciona a metodologia oficial atualmente adotada pela NOAA e por que o atual Super El Niño já entrou para a história.
O que são as anomalias absolutas e relativas?
Tradicionalmente, a intensidade dos eventos ENSO (compostos por El Niño e La Niña) é estimada por meio da anomalia da TSM na região Niño 3.4, comparando a temperatura observada com uma climatologia de referência. Essa é a chamada anomalia absoluta, utilizada há décadas em diversos produtos operacionais (como o ONI, Índice Niño Oceânico) e bastante intuitiva: quanto mais quente o oceano em relação à média histórica, maior a anomalia.

Desde o início de 2026, entretanto, a NOAA passou a adotar oficialmente um índice baseado em anomalias relativas (RONI, Índice Niño Oceânico Relativo) para monitoramento do El Niño. Nesse método, além da climatologia, também é descontado o aquecimento médio observado nos oceanos tropicais, isolando melhor o aquecimento específico associado ao El Niño. Assim, parte do sinal que antes era atribuído ao El Niño passa a ser reconhecida como resultado do aquecimento global de fundo.
Por que a diferença entre os índices está aumentando?
Há algumas décadas, as diferenças entre os dois métodos eram pequenas. Hoje, porém, elas se tornaram muito mais evidentes porque os oceanos tropicais estão significativamente mais quentes do que no passado. Em outras palavras, a temperatura absoluta da região Niño 3.4 aumentou continuamente, independentemente da ocorrência de El Niño ou La Niña.

Isso faz com que as anomalias absolutas atinjam valores cada vez maiores, enquanto as anomalias relativas descontam parte desse aquecimento de longo prazo. Assim, quanto maior a diferença entre os dois índices, maior é a evidência de que os oceanos tropicais estão aquecendo, e não apenas respondendo à variabilidade natural do El Niño.
Na prática, isso significa que, dos atuais 2,3°C observados na região Niño 3.4, cerca de 1,5°C permanecem associados ao aquecimento característico do El Niño, enquanto aproximadamente 0,8°C deixam de ser contabilizados no índice relativo por refletirem o aquecimento de fundo dos oceanos tropicais.
Super El Niño de 2026 se aproxima do ritmo observado em 1997-98
Considerando a metodologia oficial atualmente adotada pela NOAA, baseada nas anomalias relativas de TSM, o El Niño 2026-27 atingiu +1,5°C (limiar que caracteriza um evento forte) na semana centrada em 29 de julho.
Historicamente, apenas o Super El Niño de 1997-98 havia alcançado esse patamar ainda em julho, na semana centrada em 23 (1 semana mais cedo que o evento atual). Os demais eventos que atingiram essa intensidade só ultrapassaram esse limiar entre setembro e dezembro, evidenciando a precocidade do aquecimento observado em 2026.

No entanto, a comparação muda completamente quando analisamos as anomalias absolutas de TSM. Nesse caso, o limiar de 2,3°C, alcançado em 29 de julho de 2026, ocorreu apenas entre outubro e dezembro anteriormente. Em outras palavras, o fenômeno atual evolui em ritmo comparável ao de 1997, mas sobre um oceano significativamente mais quente.

Para reforçar essa diferença, basta observar a evolução da TSM diária na região Niño 3.4 no gráfico abaixo, onde a linha vermelha representa 2026 e o círculo rosa destaca uma sequência de dias com recorde desde junho.

Esses recordes mostram que o Pacífico Equatorial já atingiu temperaturas sem precedentes meses antes do período em que o El Niño normalmente alcança sua máxima intensidade, entre outubro e dezembro.
E, se as previsões se confirmarem, o mais impressionante ainda está por vir: os principais modelos indicam que a anomalia absoluta na região Niño 3.4 poderá superar os 3°C entre outubro e novembro, estabelecendo um novo recorde histórico para a série observacional.