NOAA aumenta para 81% a chance de um El Niño muito intenso

O El Niño 2026/2027 se encaminha para entrar na história: a NOAA aumentou para 81% a chance de um El Niño muito intenso entre outubro e dezembro. Em relação ao mês anterior, a probabilidade subiu cerca de 20 pontos percentuais.

Anomalias de temperatura da superfície do mar em 8 de julho de 2026 ultrapassam 3°C em uma ampla área. Créditos: Adaptada da NASA Overview pela Meteored.
Anomalias de temperatura da superfície do mar em 8 de julho de 2026 ultrapassam 3°C em uma ampla área. Créditos: Adaptada da NASA Overview pela Meteored.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), por meio do Centro de Previsão Climática (CPC), divulgou nesta quinta-feira (9) uma nova atualização do ENSO Diagnostic Discussion, documento mensal que reúne as previsões oficiais para a evolução do El Niño-Oscilação Sul (ENSO).

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O destaque desta edição é o aumento nas chances de um El Niño muito intenso durante o pico do evento. A probabilidade de que a anomalia da temperatura da superfície do mar (TSM) no Pacífico equatorial ultrapasse 2°C entre outubro e dezembro subiu para 81%, reforçando a expectativa de um dos eventos mais intensos já registrados.

Probabilidades de um El Niño muito intenso continuam aumentando

As maiores mudanças ocorreram justamente durante o trimestre em que o fenômeno atinge sua máxima intensidade. Em relação à atualização de junho, a NOAA elevou em cerca de 20 pontos percentuais a probabilidade de um El Niño muito intenso entre outubro e dezembro.

Previsão probabilística de intensidade do El Niño de julho de 2026. Créditos: CPC/NOAA.
Previsão probabilística de intensidade do El Niño de julho de 2026. Créditos: CPC/NOAA.

Além disso, praticamente desapareceu a possibilidade de um evento apenas moderado durante esse período, indicando que a agência considera um aquecimento extremo do Pacífico equatorial como o cenário mais provável.

Embora o aumento chame atenção, ele não representa uma mudança brusca na expectativa para o fenômeno. Desde os últimos meses, tanto as observações do oceano quanto as previsões dos principais modelos climáticos vêm indicando uma rápida intensificação do El Niño.

Previsão probabilística de intensidade do El Niño do mês anterior (junho de 2026). Créditos: CPC/NOAA.
Previsão probabilística de intensidade do El Niño do mês anterior (junho de 2026). Créditos: CPC/NOAA.

A atualização de julho apenas reforça esse cenário, refletindo a maior confiança dos especialistas de que o evento atingirá intensidade excepcional durante a primavera e o início do verão no Hemisfério Sul. Outro ponto importante que merece sempre ser ressaltado é a mensagem que a própria agência coloca junto do gráfico:

Eventos mais intensos nem sempre significam impactos meteorológicos e climáticos maiores; eventos mais intensos aumentam a probabilidade de que determinados impactos ocorram.

Em outras palavras, os impactos regionais não aumentam de forma linear à medida que a temperatura do Pacífico sobe. Um El Niño mais intenso aumenta a confiança nos padrões climáticos típicos associados ao fenômeno, mas não garante que eles ocorrerão com a mesma intensidade em todas as regiões.

Como a NOAA calcula essas probabilidades?

As probabilidades divulgadas pelo CPC/NOAA não são obtidas simplesmente pela média dos modelos numéricos. A previsão oficial é elaborada por uma equipe de especialistas que combina as informações de diversos modelos climáticos, observações por satélite, medições de bóias oceânicas, reanálises atmosféricas e oceânicas, além do estado atual do sistema oceano-atmosfera no Pacífico tropical.

A partir dessa avaliação, é construída uma distribuição de probabilidades para a evolução do fenômeno, que é dividida em diferentes categorias de intensidade. Um El Niño é classificado como “muito forte” - ou Super El Niño, na linguagem popular - quando as anomalias superam 2°C.

Mas o que realmente chama atenção nessas probabilidades?

À medida que o evento evolui, probabilidades elevadas para um El Niño muito intenso deixam de ser exatamente uma surpresa. As condições observadas no oceano e na atmosfera, somadas ao consenso entre os principais modelos climáticos, já indicavam há alguns meses que esse seria o cenário mais provável. Isso vem sendo discutido reiteradamente pelo time da Meteored.

O que mais chama atenção na atualização de julho é outro detalhe: as probabilidades divulgadas pela NOAA são calculadas em relação ao Índice Niño Oceânico Relativo (RONI), e não ao tradicional Índice Niño Oceânico (ONI).

Embora ambos sejam calculados a partir da TSM na região Niño-3.4 em relação à mesma climatologia (atualmente, 1991-2020), o RONI desconta o aquecimento médio de todos os oceanos tropicais. Na prática, esse ajuste remove parte do aquecimento de fundo associado às mudanças climáticas.

Diferenças entre o índice RONI, implementado em fevereiro de 2026 pela NOAA, e o tradicional ONI. Créditos: CPC/NOAA.
Diferenças entre o índice RONI, implementado em fevereiro de 2026 pela NOAA, e o tradicional ONI. Créditos: CPC/NOAA.

Com isso, os episódios de El Niño tendem a apresentar anomalias menores no RONI do que no ONI, enquanto os episódios de La Niña tendem a apresentar anomalias relativamente mais negativas. Nas últimas décadas, a diferença entre o RONI e o ONI tem variado tipicamente entre 0,3°C e 0,7°C.

Isso significa que um evento com RONI superior a 2°C deverá corresponder a um ONI ainda mais elevado. Caso essa diferença permaneça próxima dos valores observados recentemente, as anomalias absolutas do ONI poderão se aproximar (ou ultrapassar) 3°C, reforçando a expectativa de um dos El Niños mais intensos já registrados.