El Niño deve se consolidar nas próximas semanas; entenda o mecanismo que pode acelerar o aquecimento

Pacífico Equatorial se mantém em limiar de El Niño pela segunda semana consecutiva e a Oscilação Madden-Julian deve reforçar o aquecimento nas próximas semanas.

Anomalias diárias de temperatura da superfície do mar mais recentes (23 de maio de 2026), com destaque para o aquecimento no Pacífico. Créditos: NASA Worldview.
Anomalias diárias de temperatura da superfície do mar mais recentes (23 de maio de 2026), com destaque para o aquecimento no Pacífico. Créditos: NASA Worldview.

O Pacífico equatorial segue apresentando sinais cada vez mais consistentes de formação do El Niño. Dados atualizados pela NOAA mostram que a principal região de monitoramento do fenômeno permaneceu dentro do limiar de +0,5°C pela segunda semana consecutiva, enquanto modelos atmosféricos indicam condições favoráveis para um reforço do aquecimento nas próximas semanas através da Oscilação Madden-Julian (MJO).

A seguir, confira as condições atuais do Pacífico, a comparação entre as anomalias de 2026 em relação aos eventos de 1997/1998, 2015/2016 e 2023/2024, os eventos El Niño mais fortes da história recente, e entenda o mecanismo que pode acelerar o aquecimento nas próximas semanas.

Condições atualizadas do Pacífico equatorial

A região de monitoramento do El Niño permaneceu dentro do limiar de +0,5°C de anomalia relativa de temperatura da superfície do mar (TSM) pela segunda semana consecutiva, segundo dados divulgados pela NOAA nesta semana. O valor é monitorado na região Niño 3.4, localizada no Pacífico equatorial central, considerada a principal referência para identificação do fenômeno.

Resumo do Boletim da NOAA de 11 de maio de 2026. Créditos: Elaborado por Meteored/Fonte: CPC/NOAA.
Resumo do Boletim da NOAA de 11 de maio de 2026. Créditos: Elaborado por Meteored/Fonte: CPC/NOAA.

Os dados mais recentes mostram que as anomalias relativas no Niño 3.4 atingiram +0,5°C nas semanas centradas em 13 e 20 de maio de 2026. Embora o aquecimento ainda esteja abaixo dos grandes eventos históricos, ele já apresenta comportamento semelhante ao observado nos estágios iniciais de episódios anteriores de El Niño.

Como essas informações se comparam a episódios anteriores?

A comparação com anos marcados pelos eventos históricos recentes mais intensos de El Niño ajuda a contextualizar o atual aquecimento do Pacífico. O gráfico abaixo mostra a evolução das anomalias relativas semanais de TSM na região Niño 3.4 durante o mês de maio em 1997, 2015, 2023 e 2026 (linha vermelha espessa).

Em 1997 e 2015, as anomalias nas duas primeiras semanas de maio eram ligeiramente superiores às atuais, próximas de +0,6°C. A partir da terceira semana, o comportamento dos eventos históricos começou a divergir: em 1997, as anomalias permaneceram em +0,6°C antes de saltarem rapidamente para +1°C no fim de maio, enquanto em 2015 houve uma breve desaceleração antes de um novo fortalecimento nas semanas seguintes.

Já em 2023, a neutralidade predominou ao longo de todo o mês, e o limiar de El Niño só foi alcançado na semana centrada em 21 de junho.

Comparação da anomalia relativa semanal de SST no Niño 3.4 para o mês de maio de 1997, 2015, 2023 e 2026, com dados do CPC/NOAA.
Comparação da anomalia relativa semanal de SST no Niño 3.4 para o mês de maio de 1997, 2015, 2023 e 2026, com dados do CPC/NOAA.

Assim, a evolução observada em 2026 até o momento se aproxima mais do comportamento registrado nos estágios iniciais dos eventos de 1997/1998 e 2015/2016 do que do desenvolvimento mais lento observado em 2023.

No entanto, é importante destacar que as anomalias registradas durante o mês de maio não determinam, sozinhas, a intensidade final do fenômeno nem seus impactos globais. O evento de 2023/2024, por exemplo, teve um maio neutro, mas posteriormente ultrapassou +2°C e esteve associado a recordes sucessivos de temperatura global e eventos extremos sem precedentes em diferentes partes do planeta.

MJO irá reforçar o aquecimento nas próximas semanas

Nas próximas semanas, o aquecimento das águas do Pacífico equatorial central pode ganhar um reforço importante devido à atuação de uma oscilação intrasazonal (30 a 60 dias) da atmosfera conhecida como Oscilação Madden-Julian (MJO).

A MJO é um padrão natural de variabilidade da atmosfera tropical onde um pulso se desloca de oeste para leste ao redor da faixa equatorial do planeta, modificando temporariamente os padrões de chuva e circulação atmosférica ao alternar regiões com favorecimento e desfavorecimento da atividade convectiva.

Segundo atualização divulgada pela NOAA na segunda-feira (25), a MJO avançou recentemente em direção ao Pacífico Oeste após permanecer várias semanas sobre o Oceano Índico. O boletim destaca ainda o fortalecimento do sinal atmosférico à medida que ele atravessa o Pacífico Oeste, além da interação com uma onda de Kelvin que atravessa o Pacífico equatorial.

Previsão da MJO pelos modelos GEFS e ECMWF entre o fim de maio e junho de 2026. Créditos: CPC/NOAA.
Previsão da MJO pelos modelos GEFS e ECMWF entre o fim de maio e junho de 2026. Créditos: CPC/NOAA.

Os modelos GEFS e ECMWF indicam que a MJO deve continuar se fortalecendo nas próximas duas semanas ao avançar pelas fases 7 e 8. Na prática, esse padrão favorece o enfraquecimento dos ventos alísios (ventos de leste típicos da região equatorial) e cria condições mais favoráveis para a formação de rajadas de vento de oeste próximas à linha do Equador, conhecidas como westerly wind bursts.

Esses eventos ajudam a deslocar águas mais quentes do Pacífico oeste em direção ao centro e leste do oceano e também favorecem a subida para a superfície de águas quentes que estão armazenadas abaixo da superfície, intensificando o aquecimento na região Niño 3.4.

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