Efeito El Niño: risco extremo de tempestades severas na Região Sul, Argentina e no Uruguai

Sequência de dias com tempestades severas e chuvas volumosas traz alerta de transtornos generalizados na reta final de julho.

A população e as autoridades precisam estar em alerta para condições extremas, são esperados granizo, rajadas intensas de vento e chuvas volumosas.
A população e as autoridades precisam estar em alerta para condições extremas, são esperados granizo, rajadas intensas de vento e chuvas volumosas.

Enquanto o início da semana será marcado por frio e tempo firme em grande parte do Centro-Sul do Brasil, a atmosfera começa a mudar a partir de sexta-feira (17). A previsão indica um elevado risco de tempestades muito intensas, chuva intensa e transtornos no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina.

Tempestades intensas começam a atuar já a partir de quinta (16), se fortalecendo e se intensificando até a próxima semana. No mapa acima, a previsão para sábado (18), segundo o ECMWF.
Tempestades intensas começam a atuar já a partir de quinta (16), se fortalecendo e se intensificando até a próxima semana. No mapa acima, a previsão para sábado (18), segundo o ECMWF.

A mudança ocorre justamente em um momento em que o El Niño passa a influenciar de forma mais evidente a circulação atmosférica sobre a América do Sul. Em conjunto com um bloqueio atmosférico, o fenômeno cria um ambiente favorável para vários dias consecutivos de tempestades destrutivas e elevados acumulados de chuva no Cone Sul da América do Sul. A seguir, entenda o papel do El Niño neste quadro e os riscos envolvidos.

O papel do El Niño

O El Niño modifica a circulação atmosférica sobre a América do Sul, favorecendo o fortalecimento do jato subtropical - uma corrente de ventos em altos níveis da atmosfera - e aumentando a frequência e a intensidade dos episódios do Jato de Baixos Níveis da América do Sul (JBNAS), uma esteira transportadora de calor e umidade da Amazônia em direção ao sul do continente.

O fortalecimento do jato subtropical aumenta o “suporte dinâmico” para a formação de tempestades. Nas regiões de entrada e saída dos máximos de velocidade desse jato formam-se áreas de divergência em altos níveis, onde o ar se afasta horizontalmente.

Mapa previsto de vento em altos níveis para sábado (18) mostrando uma área com divergência, segundo o ECMWF.
Mapa previsto de vento em altos níveis para sábado (18) mostrando uma área com divergência, segundo o ECMWF.

Pela física, essa "retirada" de ar em altitude precisa ser compensada por ar que sobe das camadas mais baixas da atmosfera. Esse movimento ascendente favorece a formação e o crescimento das nuvens de tempestade.

Esquema representativo da conservação de massa induzida por divergência em altos níveis.
Esquema representativo da conservação de massa induzida por divergência em altos níveis.

Mas, para que essas tempestades se desenvolvam, é preciso combustível, e é aí que entra o JBNAS. Esse corredor de ventos transporta grandes volumes de ar úmido (rio atmosférico) e quente da Amazônia em direção ao Paraguai, norte da Argentina, Uruguai e Região Sul do Brasil, fornecendo a energia necessária para sustentar chuvas intensas e tempestades severas.

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As anomalias de temperatura podem alcançar 22°C acima da média no norte da Argentina e 13°C acima da média no Rio Grande do Sul em alguns horários da previsão.

Previsão de anomalia de temperatura (esquerda) e de rio atmosférico (direita) para sexta-feira (17),segundo o ECMWF.
Previsão de anomalia de temperatura (esquerda) e de rio atmosférico (direita) para sexta-feira (17),segundo o ECMWF.

Quando o suporte dinâmico proporcionado pelo jato subtropical atua em conjunto com o intenso transporte de calor e umidade promovido pelo JBNAS, cria-se um ambiente altamente favorável à formação de tempestades organizadas, capazes de produzir chuva volumosa, vendavais, granizo e com potencial para extremos de vento como microexplosões e tornados.

Alerta de chuvas extremas

Um indicador de eventos extremos importante é o Índice de Previsão Extrema (EFI) do ECMWF. O produto compara a previsão atual com a climatologia do próprio modelo e ressalta áreas onde é provável a ocorrência de um evento incomum ou extremo, baseado no percentil 99 (P99) - que representa um acumulado de chuva superado em apenas 1% dos casos para aquela região e época do ano.

Entre os dias 17 e 22 de julho, o mapa abaixo destaca o Rio Grande do Sul e áreas vizinhas (incluindo parte de Santa Catarina, Uruguai e Argentina) com valores elevados de EFI, indicando alta probabilidade das chuvas superarem 180 mm.

EFI do ECMWF para a precipitação destaca chuvas extremas sobre o Rio Grande do Sul e Uruguai entre 17 e 22 de julho. Créditos: ECMWF.
EFI do ECMWF para a precipitação destaca chuvas extremas sobre o Rio Grande do Sul e Uruguai entre 17 e 22 de julho. Créditos: ECMWF.

De fato, a previsão do modelo ECMWF indica acumulados da ordem de 300 mm sobre o Rio Grande do Sul entre 17 e 23 de julho. Valores elevados também podem ocorrer nas vizinhanças, incluindo Santa Catarina, Uruguai e Argentina.

Previsão de chuva acumulada até quinta-feira (23), segundo o ECMWF.
Previsão de chuva acumulada até quinta-feira (23), segundo o ECMWF.

Embora o dia 23 seja o final do horizonte desta previsão, as chuvas devem continuar nos dias seguintes. Previsões estendidas de vários modelos indicam volumes se aproximando de 500 mm no Rio Grande do Sul nos próximos 15 dias.

São esperados diversos transtornos relacionados aos acumulados elevados de chuva, como inundações, enxurradas e enchentes. Somado a isso, também são esperados danos relacionados à severidade das tempestades, como estragos por ocorrência de granizo e eventos extremos de vento, como microexplosões e tornados isolados. A população e as autoridades precisam estar em alerta para condições extremas na reta final de julho.