Como será o clima no outono com a formação do El Niño
O outono de 2026 pode marcar a transição para El Niño. Veja como isso pode influenciar a chuva e a temperatura no Brasil nos próximos meses.
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O outono astronômico iniciou nesta sexta-feira (20), mas se você é um leitor assíduo da Meteored, a este ponto você já sabe que a meteorologia segue um calendário diferente. Climatologicamente, as estações são divididas em trimestres completos, onde os meses são agrupados devido às condições semelhantes de temperatura e circulação atmosférica. Desta forma, o outono compreende o período entre 1° de março e 31 de maio, ou seja, estamos quase no final do primeiro mês da estação.
Com o aquecimento do Oceano Pacífico central e um El Niño previsto para se consolidar nos próximos meses, vamos conferir a seguir como tem sido o outono até agora, como está a evolução das temperaturas do Pacífico equatorial e qual a previsão do modelo ECMWF para temperatura e precipitação no Brasil nos próximos meses.
Março até agora: chuvas irregulares, temperaturas média
Os mapas abaixo mostram as anomalias de precipitação, temperatura mínima e máxima (painel superior) entre os dias 1° e 19 de março junto da climatologia (painel inferior).
O primeiro mês do outono meteorológico tem sido de precipitação irregular sobre o Brasil, com anomalias predominantemente negativas sobre o Sul e predominantemente positivas no Nordeste. Nas demais regiões, núcleos intercalados com anomalias positivas e negativas predominam, especialmente no Norte.

Em termos de temperatura, tanto as mínimas quanto as máximas ficaram praticamente dentro da média. As temperaturas mínimas tiveram um ligeiro viés quente, com exceção da faixa leste do Sudeste onde uma massa de ar frio atuou.
Já as máximas ficaram entre a média e abaixo da média, com os maiores desvios negativos sobre o Sudeste, enquanto no oeste da Região Sul as anomalias foram positivas, devido a uma bolha de calor no Paraguai.
El Niño pode se consolidar no outono
Baseado no novo índice RONI de monitoramento dos eventos El Niño e La Niña, o último boletim da NOAA ainda mantém condições de La Niña presentes, apesar do tradicional índice ONI indicar que o resfriamento terminou em janeiro, sem nem ter configurado um episódio de La Niña.
Mesmo assim, o boletim emite um aviso de “El Niño Watch”, quando há possibilidade do El Niño se formar nos próximos seis meses. De acordo com os cientistas da NOAA, há 55% de probabilidade de neutralidade entre maio-junho-julho e 62% de probabilidade de se consolidar entre junho-julho-agosto.

Aqui é importante ressaltar que essas probabilidades envolvem, também, uma avaliação subjetiva dos cientistas da NOAA. Além disso, 55% de probabilidade é praticamente um “cara ou coroa”, na prática isso representa chances praticamente iguais de neutralidade ou El Niño.
Somado a isso, a média dos modelos dinâmicos (linha rosa espessa no gráfico abaixo), superiores em relação aos estatísticos, aponta que o limiar de El Niño pode ser alcançado entre os trimestres de março-abril-maio e abril-maio-junho, como destacado no gráfico abaixo.

Na prática, isso significa que o El Niño pode se consolidar ao longo do outono de 2026. Lembrando que esta média de modelos não considera mais as previsões do ECMWF, um dos modelos mais consolidados do mundo, desde 2025. O ECMWF também vem projetando um rápido aquecimento do Pacífico equatorial, o que, na prática, poderia antecipar ainda mais as projeções do gráfico acima.

Enquanto a região Niño 3.4, onde o fenômeno é monitorado, permaneceu com anomalias de -0,5°C na última semana, limiar de La Niña, a região do Niño 1+2 que já configura um El Niño Costeiro, na costa do Peru, esquentou mais, alcançando +1,2°C.
Além disso, há uma bolha de água quente nas camadas subsuperficiais (300 m de profundidade) se intensificando e emergindo. Quando esta água quente alcançar a superfície, o El Niño pode ser estabelecido.
Como será o clima no Brasil nos próximos meses?
Uma vez que o outono já está climatologicamente no final do seu primeiro mês, vamos ver o que o modelo ECMWF, de confiança da Meteored, vem projetando para o trimestre de abril-maio-julho.
Na área branca do mapa (maior parte do país), não há sinal claro de tendência, com chances semelhantes para chuva acima, dentro ou abaixo do normal.

Já em relação à temperatura na superfície, o ECMWF prevê essencialmente temperaturas acima da média em todo o país, sendo menores na metade norte (até 0,5°C) e maiores no Nordeste e metade sul do Brasil, com anomalias entre 0,5°C e 2°C.
Além disso, embora a atmosfera não responda imediatamente ao aquecimento do Pacífico, já existe uma influência que independe desse tempo de ajuste completo, atuando por meio de teleconexões. O aquecimento do Pacífico pode disparar ondas atmosféricas que afetam a posição e intensidade do jato subtropical, que controla até onde as frentes frias podem avançar. Um jato subtropical mais intenso e zonal, faz com que sistemas precipitantes fiquem estacionários sobre o Sul do Brasil e pode provocar eventos extremos de precipitação.