Fertilizantes na corda bamba: o choque da ureia que pode encarecer do milho ao café

Com a ureia em alta e o Brasil dependente de importações, o custo do fertilizante volta ao centro do agro, apertando decisões no campo e acendendo o alerta para milho, café, soja e alimentos nos próximos meses.

Fertilizantes como a ureia são essenciais para a produtividade agrícola, mas sua dependência de importações torna o Brasil vulnerável a choques internacionais de preços.
Fertilizantes como a ureia são essenciais para a produtividade agrícola, mas sua dependência de importações torna o Brasil vulnerável a choques internacionais de preços.

Tem coisa que o consumidor quase nunca vê, mas que pesa muito no preço da comida. O fertilizante é uma delas. Nesta semana, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) pediu ao Ministério da Fazenda um decreto emergencial para zerar temporariamente o AFRMM, taxa que incide sobre o transporte aquaviário de cargas, argumentando que os fertilizantes nitrogenados importados, como a ureia, já acumulavam forte alta em meio à tensão no Oriente Médio.

A preocupação faz sentido porque o Brasil ainda depende fortemente do exterior para abastecer o campo.

Segundo o Plano Nacional de Fertilizantes, mais de 80% dos fertilizantes usados no país são importados, e soja, milho e cana-de-açúcar respondem por mais de 73% do consumo nacional desses insumos. Quando esse elo balança, o efeito não fica só na lavoura: ele pode alcançar custos de produção, frete e, adiante, os preços dos alimentos.

O insumo invisível que move a comida

A ureia é, em linguagem simples, um dos principais fertilizantes nitrogenados da agricultura. A Embrapa destaca que ela é a fonte de nitrogênio mais utilizada porque combina alta concentração do nutriente e menor custo por unidade de nitrogênio. Isso ajuda a explicar por que qualquer salto no seu preço vira assunto importante para produtores de diferentes culturas.

Carga de ureia importada em portos brasileiros destaca a dependência externa do país e como a logística internacional influencia diretamente o custo dos fertilizantes no campo.
Carga de ureia importada em portos brasileiros destaca a dependência externa do país e como a logística internacional influencia diretamente o custo dos fertilizantes no campo.

O problema é que o choque atual não nasce dentro da fazenda, mas na geopolítica e na logística internacional. Em artigo publicado hoje, o Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE) observou que as tensões no Estreito de Ormuz já elevaram os preços da ureia em mais de 30% ante o período pré-conflito e chamou atenção para o peso da região no escoamento global desses insumos.

No mesmo sentido, a CNA relatou, no pedido de redução do AFRMM, que a ureia já acumulava alta de 35%, pressionando a conta do produtor antes mesmo do início da próxima safra principal.

Por que o clima complica a decisão

O fertilizante não encarece sozinho: ele encarece no pior momento possível, quando o produtor precisa decidir compra, dose e momento de aplicação. No caso da ureia, a própria Embrapa lembra que sua eficiência depende também das condições climáticas e do manejo, porque perdas de nitrogênio podem variar conforme clima, solo, cobertura e forma de aplicação.

Em outras palavras, quando o adubo fica mais caro e o tempo segue incerto, o risco técnico e financeiro cresce ao mesmo tempo.

Os primeiros setores que tendem a sentir esse aperto são justamente os mais dependentes do insumo ou os que carregam seus efeitos pela cadeia:

  • milho, porque aparece entre os produtos com maior participação de fertilizantes no custo e, no exercício do IBRE, poderia registrar forte impacto sobre preços ao produtor;
  • soja, que também combina alto uso de fertilizantes e efeito indireto sobre derivados e rações;
  • café, que no estudo do IBRE surge como cultura relevante, com peso importante dos fertilizantes no custo variável;
  • proteínas animais, porque parte do repasse passa pelas rações derivadas de milho e soja.

Isso não significa que tudo ficará automaticamente mais caro amanhã. O que muda primeiro é a margem de segurança do produtor. Se o fertilizante sobe muito, alguns podem adiar compras, recalcular doses ou rever investimentos. O campo continua produzindo, mas passa a operar com menos folga e com decisões mais sensíveis à previsão do tempo, ao câmbio e ao frete.

O que pode chegar primeiro à mesa

A melhor forma de entender esse tema é pensar no fertilizante como um ingrediente escondido do sistema alimentar. Ele não aparece na prateleira, mas está por trás do milho que vira ração, do café que depende de nutrição equilibrada e da soja que move tanto alimentos quanto cadeias industriais. Por isso, quando a ureia encarece, a discussão deixa de ser apenas agrícola e passa a ser também inflacionária.

O próprio FGV IBRE estima que, em cenários de repasse, o choque pode atingir preços ao produtor ao longo de poucos meses.

O recado desta semana é claro: o Brasil continua muito exposto a choques externos em um insumo essencial.

A urgência da CNA em pedir alívio tributário no frete e o alerta do FGV IBRE sobre o potencial de transmissão aos preços mostram que a conta do conflito não termina no petróleo. Ela pode sair do navio, entrar no saco de adubo, atravessar a lavoura e, mais adiante, bater na mesa do consumidor.

Referência da notícia

Além do petróleo: como a disrupção logística de fertilizantes ameaça o IPA em 2026. 20 de março, 2026. IBRE.