Solo coberto, planta bem nutrida: o que o calor faz com o nitrogênio na lavoura
Um experimento de 10 anos simulou aquecimento e comparou plantio conservacionista e manejo convencional. O solo coberto fortaleceu micróbios úteis, aumentou a absorção de nitrato pelo trigo e indica caminhos para economizar adubo no Brasil, desde já.

O aquecimento do clima não mexe só com a chuva e a temperatura do ar. Ele também altera processos dentro do solo, mudando quando e como os nutrientes ficam disponíveis.
Um estudo de campo publicado na Nature Communications acompanhou por 10 anos o efeito de um aquecimento controlado e comparou dois manejos agrícolas. Em sistemas conservacionistas, o calor extra pode favorecer mais a captação de nitrogênio porque a interação entre raízes e microrganismos fica mais eficiente, e a competição, menor.
Nitrogênio: uma disputa silenciosa no solo
No solo, o nitrogênio circula. Parte está presa na matéria orgânica, parte vira nitrato e outras formas minerais que a planta absorve, e outra parte é temporariamente “guardada” pela microbiota. Se os microrganismos imobilizam muito, falta nitrogênio; se a liberação acontece na hora certa, a lavoura responde.

O detalhe é que esse ciclo depende de energia, e a energia vem do carbono. Palhada, raízes e compostos liberados pela planta alimentam a vida do solo e influenciam quais microrganismos predominam. Solo coberto e pouco revolvido tende a manter mais umidade e menor oscilação térmica, condições que ajudam o ciclo do nitrogênio a funcionar com mais regularidade.
Dez anos de aquecimento: o que o experimento mediu
No experimento, parcelas foram mantidas cerca de +2 °C por uma década. Os pesquisadores rastrearam o nitrogênio com marcação 15N, além de analisar metabólitos nas raízes e o DNA dos microrganismos, para ligar manejo, microbiota e disponibilidade de nutrientes.
Em paralelo, o aquecimento ampliou a vantagem do sistema conservacionista e reduziu a força da competição microbiana; também acelerou processos internos do solo, como mineralização e nitrificação, e diminuiu a imobilização microbiana no manejo conservacionista.

Os autores ainda observaram mudanças nos compostos liberados pelas raízes e no “catálogo” de genes microbianos ligados ao ciclo do nitrogênio, sugerindo que o aquecimento reorganiza quem faz o quê no solo. Na prática, isso melhora a troca carbono–nitrogênio e dá ao trigo mais vantagem para acessar o nutriente.
Na prática, agricultura conservacionista costuma reunir escolhas que mantêm o solo protegido e biologicamente ativo:
- menor revolvimento (plantio direto ou preparo mínimo)
- cobertura com palhada e/ou plantas de cobertura por mais tempo
- rotação de culturas, para diversificar raízes e alimento microbiano
- adubação ajustada ao sistema, para reduzir perdas
O que isso indica para o Brasil
O Brasil já tem base para transformar esse tipo de evidência em manejo, porque o plantio direto é uma tecnologia difundida e em consolidação no Sul. Isso é especialmente relevante para o trigo, cuja produção se concentra em estados como Paraná e Rio Grande do Sul, onde ondas de calor e “viradas” rápidas de tempo podem encurtar estágios e elevar o risco de adubar sem retorno.
Para o Brasil, o caminho é tornar o conservacionismo “real”: garantir palhada suficiente, usar plantas de cobertura que produzam biomassa, ampliar rotações, ajustar dose e época de nitrogênio à demanda e evitar compactação.
Se esse pacote avança, o ganho aparece onde mais importa: mais grão por quilo de adubo e menos nitrogênio perdido para o ambiente.
Referência da notícia
Conservation agriculture raises crop nitrogen acquisition by amplifying plant-microbe synergy under climate warming. 11 de dezembro, 2025. Hao, C., Dungait, J.A.J., Shang, W. et al.