COP30: novo relatório revela como florestas sustentam a produção agrícola

Um novo relatório internacional revela que florestas e árvores funcionam como aliadas vitais do agro, reduzindo calor, regulando chuvas, protegendo solos e trabalhadores rurais em um clima cada vez mais extremo e ampliando segurança hídrica e alimentar.

As florestas sustentam o clima que a agricultura precisa para produzir.
As florestas sustentam o clima que a agricultura precisa para produzir.

Quando se fala em clima e agricultura, a conversa costuma girar em torno de fertilizantes, irrigação e novas sementes. Mas um relatório técnico recém-lançado por FAO, SEI, The Nature Conservancy e Conservation International traz uma virada de chave: florestas e árvores não são apenas “áreas de conservação”, e sim peças centrais da produtividade no campo.

Elas ajudam a regular o calor, a chuva, a água disponível e até o trabalho humano nas áreas rurais.

O documento reúne evidências científicas de vários continentes mostrando como a derrubada de florestas encurta a estação chuvosa, intensifica ondas de calor, piora a qualidade da água e aumenta o estresse térmico de quem trabalha ao ar livre. Ao mesmo tempo, sistemas com mais árvores, de matas ciliares a agroflorestas, conseguem estabilizar a produção, reduzir custos com insumos e reforçar a segurança alimentar.

Árvores como ar-condicionado natural do campo

O relatório mostra que florestas exercem um papel pouco lembrado: funcionam como um sistema de resfriamento natural em várias escalas. Folhas e copas liberam vapor d’água (evapotranspiração), que ajuda a baixar a temperatura do ar e manter a umidade, enquanto a sombra reduz o superaquecimento do solo.

Árvores ajudam a regular temperatura, água e estabilidade das lavouras.
Árvores ajudam a regular temperatura, água e estabilidade das lavouras.

Em áreas tropicais, a conversão de floresta em lavoura já reduziu a evapotranspiração em cerca de 30% em partes do Brasil, elevando as temperaturas locais; estudos indicam que restaurar parte dessas áreas poderia derrubar a temperatura da superfície em aproximadamente 1 °C.

Esse “ar-condicionado verde” não protege apenas as plantas, mas também as pessoas. Entre 2001 e 2020, o aquecimento associado ao desmatamento tropical contribuiu para dezenas de milhares de mortes extras por calor por ano

Em paisagens desmatadas, trabalhadores rurais já perdem mais tempo de trabalho seguro por dia e, com mais 2 °C de aquecimento global, essa perda pode chegar a até cinco horas diárias em algumas regiões, um baque direto na renda e na produção de alimentos.

Serviços invisíveis: água, solo, polinizadores e controle de pragas

Florestas e árvores também comandam a “engenharia da água” que sustenta as lavouras. Ao liberar umidade para a atmosfera, elas ajudam a formar e manter chuvas a centenas de quilômetros de distância. Uma análise citada no relatório indica que áreas agrícolas de 155 países dependem de florestas em outros territórios por até 40% da precipitação anual.

A presença de florestas fortalece a resiliência da produção de alimentos.
A presença de florestas fortalece a resiliência da produção de alimentos.

Além da água, as árvores entregam um pacote de serviços ecológicos que raramente entram na conta do custo de produção, mas fazem diferença no bolso:

  • Polinizadores mais diversos, aumentando a frutificação de culturas como café, frutas e oleaginosas.
  • Mais inimigos naturais de pragas, reduzindo a pressão de insetos e a dependência de inseticidas.
  • Ciclagem de nutrientes, formação de solo e controle de erosão, que mantêm a fertilidade por mais tempo.
  • Microclimas mais amenos, com sombra e maior retenção de umidade no solo.
  • Biomassa para forragem, lenha e cobertura morta, ajudando a fechar ciclos dentro da própria propriedade.

Em sistemas integrados, com árvores nas bordas, faixas de proteção ao longo de cursos d’água ou agroflorestas, esses serviços se somam e podem reduzir a necessidade de insumos externos, ao mesmo tempo em que aumentam resiliência a secas e extremos.

Brasil rural entre desmate e calor

No Brasil, esse debate é ainda mais urgente. O país combina uma das maiores fronteiras agrícolas do planeta com florestas tropicais de importância global, como Amazônia e fragmentos no Cerrado e na Mata Atlântica.

O relatório destaca que grandes desmatamentos na Amazônia já elevaram a temperatura da superfície em 3–5 °C em algumas áreas e podem influenciar o regime de chuvas em regiões agrícolas distantes.

Ao mesmo tempo, paisagens em mosaico, com clareiras menores cercadas por floresta, matas ciliares conservadas e árvores em pastagens, experimentam menos aquecimento e mantêm mais serviços ecológicos.

Em um país que sente na pele extremos de calor, seca e chuva, florestas podem ser o diferencial entre uma safra quebrada e um sistema realmente resiliente.

Referência da notícia

Climate and ecosystem service benefits of forests and trees for agriculture. 18 de novembro, 2025. FAO.