Alerta de El Niño forte: veja o risco para café, trigo, milho e cana no Brasil
O El Niño ganhou força no Pacífico e pode atingir intensidade muito alta até o fim de 2026, alterando chuva, calor, doenças e janelas de manejo para culturas importantes em diferentes regiões do Brasil nos próximos meses.

O El Niño ganhou um novo grau de atenção nesta semana. Em boletim divulgado em 9 de julho, o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos, ligado à NOAA e ao Serviço Nacional de Meteorologia, informou que o fenômeno continuará se fortalecendo até o fim de 2026.
A probabilidade de persistir até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte chegou a 97%, enquanto a chance de alcançar categoria “muito forte” entre outubro e dezembro subiu para 81%.

O número impressiona, mas não significa que todas as regiões brasileiras receberão impactos na mesma intensidade. Eventos fortes aumentam a probabilidade dos padrões clássicos, porém não determinam sozinhos cada chuva, onda de calor ou quebra de safra. Para o agro, a pergunta mais útil não é apenas “quão forte será?”, mas quais culturas ficam mais expostas ao excesso de água, ao calor, às doenças e às mudanças na janela de manejo.
Sul: trigo e frutas ficam mais expostos à água demais
No Sul, o principal risco associado a um El Niño intenso é a maior frequência de períodos chuvosos, sobretudo quando o fenômeno coincide com a primavera e o verão. Para o trigo, chuva persistente durante espigamento, enchimento dos grãos ou colheita pode elevar a pressão de doenças fúngicas, reduzir a qualidade industrial e diminuir as janelas para entrada de máquinas.

Pomares de maçã, uva, pêssego e outras frutas temperadas também sofrem quando umidade elevada e pouca insolação favorecem doenças e dificultam tratamentos.
Nem toda chuva, porém, é prejuízo. Milho de verão, pastagens e arroz irrigado podem se beneficiar de maior disponibilidade hídrica, desde que os volumes sejam bem distribuídos e não provoquem encharcamento, erosão ou interrupções logísticas.
Centro-Sudeste: café, cana e hortaliças dependem do momento da chuva
No cinturão do café, o maior perigo não é simplesmente chover menos ou mais, mas a combinação entre calor e distribuição irregular da precipitação. A florada precisa de uma transição bem marcada entre período seco e retorno da chuva. Calor excessivo, estiagem prolongada ou pancadas isoladas podem provocar floradas desuniformes, queda de flores e maturação desigual. Hortaliças e frutas tropicais também exigem mais irrigação quando a temperatura sobe e o ar fica seco.

A cana-de-açúcar ocupa uma posição intermediária. Tempo seco favorece corte, transporte e concentração de açúcares, mas déficit hídrico prolongado prejudica a brotação e o desenvolvimento dos canaviais. Já a chuva frequente reduz o ritmo da colheita e aumenta problemas em estradas rurais.
Quem precisa se proteger primeiro
O ranking de risco deve ser entendido como uma prioridade de monitoramento, e não como previsão de perda garantida:
- Maior atenção ao excesso de chuva: trigo e frutas temperadas no Sul;
- Maior atenção ao calor e à irregularidade da chuva: café, milho e hortaliças no Centro-Oeste e Sudeste;
- Maior risco operacional: cana-de-açúcar durante períodos chuvosos;
- Possível benefício, se a chuva for bem distribuída: milho de verão, pastagens e arroz irrigado no Sul;
- Risco crescente de doenças: culturas densas, pomares e hortaliças sob umidade elevada.
A proteção começa antes do impacto: drenagem revisada, escalonamento do plantio, irrigação preparada, monitoramento de doenças, escolha de cultivares e respeito ao zoneamento agrícola reduzem a exposição. O El Niño deve orientar o planejamento, mas não substituir a previsão de curto prazo.