Tempestades de poeira: outra consequência inesperada (e indesejada) das mudanças climáticas
Você está dirigindo em uma rodovia e, de repente, o céu fica laranja, você não consegue enxergar além das suas mãos e o ar se torna irrespirável. Não, não é uma cena do filme Interestelar, mas parte de uma realidade cada vez mais comum.

Imagine o céu do Caribe ficando marrom em vez de azul. Em junho de 2025, uma gigantesca nuvem de poeira do Saara cobriu o Caribe, reduzindo a visibilidade e desencadeando alertas de saúde em Porto Rico, Jamaica e República Dominicana. Isso não é ficção; trata-se de poeira viajando 6.000 km pelo Atlântico, carregada de bactérias e metais pesados, de acordo com imagens de satélite da NASA.
Esse evento, um dos maiores do ano, cancelou excursões turísticas e levou centenas de pessoas à hospitalização com problemas respiratórios. Mas a poeira não vem apenas da África: nas Américas — assim como em grande parte do mundo — secas locais a intensificam.
Há alguns dias, ventos superiores a 150 km/h na Patagônia levantaram poeira daquela região árida, carregando-a para o centro do país e obscurecendo o céu de Buenos Aires.
No estado do Novo México (EUA), 50 tempestades de poeira e areia em três meses de 2025 causaram inúmeros acidentes fatais, enquanto esse fenômeno dobrou desde 1990 no sudoeste dos Estados Unidos.
Agora, esse "vento tóxico" está cruzando fronteiras, lembrando-nos da cena apocalíptica de 'Interestelar', onde tempestades de poeira devoram plantações e forçam uma fuga ao espaço devido ao colapso climático. Estaríamos vivendo esse cenário fictício do filme em tempo real?
Por que esses tipos de fenômenos estão em ascensão?
As mudanças climáticas são a força motriz por trás dessa situação dramática: elas aquecem o planeta, prolongam as secas e erodem os solos áridos. Na América Latina, assim como em grande parte do mundo, a desertificação avança em um ritmo alarmante: o desmatamento e o uso intensivo da terra liberam partículas que representam 40% dos aerossóis globais, segundo a ONU.
Embora as tempestades de poeira sejam um fenômeno natural e, em certa medida, benéficas por atuarem como fertilizante para os ecossistemas marinhos, essas tempestades não apenas escurecem o céu, como também transportam patógenos. No Caribe, a tempestade de poeira do Saara de 2025 exacerbou infecções fúngicas como a coccidioidomicose (que pode ser grave ou fatal se não tratada), com um aumento de 20% nos casos relatados.
Cientistas utilizam sensores em tempo real para prever e monitorar esses eventos, revelando que ventos mais fortes — aqueles que ultrapassam 100 km/h — levantam trilhões de toneladas de poeira anualmente em todo o mundo.
Enorme tormenta de polvo se cierne sobre Gancedo, Chaco, #Argentina. (12.01.2023). #Massive #Duststorm #Sandstorm #Haboob #zabedrosky pic.twitter.com/QC0ml92CyY
— Climagram (@deZabedrosky) January 14, 2023
Na América Latina, os impactos locais são significativos: nos Llanos venezuelanos e no Chaco paraguaio, tempestades de poeira locais causadas pela seca destruíram plantações de milho e soja, resultando em milhões de dólares em prejuízos agrícolas.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) estima que 330 milhões de pessoas em 150 países, incluindo 50 milhões na região, respiram essa poeira diariamente, aumentando em 15% o risco de doenças cardiovasculares.
Podemos frear estas tempestades de poeira?
Em 'Interestelar', pragas e tempestades transformam a Terra em um deserto inabitável, forçando a humanidade a buscar refúgio no espaço. Hoje, em nossa região, vemos alguns reflexos disso: a seca na Amazônia gera mini-tempestades que acidificam os solos e reduzem a biodiversidade, ameaçando comunidades indígenas na Bolívia e no Peru com migrações forçadas.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) associa 7 milhões de mortes prematuras anuais a partículas finas, e na Argentina, estudos da Universidade Estadual da Geórgia estimam entre 3.700 e 10.600 mortes adicionais devido à poluição do ar durante períodos de seca, afetando duramente as comunidades pobres que não têm acesso a máscaras ou alertas.

As implicações são drásticas: essa poeira agrava as mudanças climáticas em um ciclo vicioso, escurecendo os céus e reduzindo a reflexão solar nas geleiras andinas, acelerando seu derretimento. No Caribe, o turismo — fundamental para economias como a de Barbados — está sofrendo com paralisações devido às "chuvas sujas", com perdas projetadas para atingir US$ 500 milhões até final de 2025.
A poeira se tornará a vilã que nos expulsará de casa?
Ainda há esperança de um resultado positivo. Iniciativas da ONU, como a Década de Combate à Poeira (2025-2034), estão promovendo esforços de restauração no Uzbequistão e no México, incluindo o plantio de cactos nativos para estabilizar o solo. Modelos preditivos da NOAA poderiam fornecer um aviso prévio de 48 horas sobre tempestades de poeira, salvando vidas.
Sand and dust storms are a growing hazard for health, economies, and ecosystems.
— World Meteorological Organization (@WMO) July 11, 2025
WMO supports Members to strengthen monitoring, forecasting, and early warnings.
Full publication: https://t.co/nen1qFMfAM pic.twitter.com/46Hza3Mft7
Mas, em última análise, tudo depende de políticas, como a redução das emissões em 45% até 2030, conforme previsto no Acordo de Paris. Na América Latina, as alianças regionais contra a desertificação podem ser o nosso trampolim. Não vamos esperar pelo clímax destrutivo; vamos criar raízes hoje, para que a poeira não nos afogue amanhã.