Primatas com polegares mais longos tendem a ter cérebros maiores, aponta estudo

Pesquisa sugere que a destreza manual e o cérebro evoluíram juntos em primatas. Humanos não são exceção, mas parte de um padrão mais amplo na evolução.

Um lêmure-de-cauda-anelada no zoológico ZSL Whipsnade. Cientistas estudaram a massa cerebral estimada e o comprimento do polegar de 94 espécies de primatas. Crédito: Leon Neal/Getty Images
Um lêmure-de-cauda-anelada no zoológico ZSL Whipsnade. Cientistas estudaram a massa cerebral estimada e o comprimento do polegar de 94 espécies de primatas. Crédito: Leon Neal/Getty Images

Um novo estudo científico revelou uma intrigante relação entre o comprimento dos polegares e o tamanho do cérebro em primatas. Segundo os pesquisadores, primatas com polegares mais longos tendem a apresentar cérebros maiores, sugerindo uma evolução conjunta entre a destreza manual e a capacidade cognitiva.

“Imaginamos um cenário evolutivo no qual um primata ou humano se torna mais inteligente, e com isso passa a planejar melhor suas ações, refletir sobre o que faz com as mãos e perceber formas mais eficientes de manipular objetos”, explica a Dra. Joanna Baker, autora principal do estudo e pesquisadora da Universidade de Reading, no Reino Unido.

De acordo com Baker, indivíduos com polegares mais longos — e, portanto, maior capacidade de manipular objetos com precisão — teriam mais sucesso em suas atividades, favorecendo a sobrevivência e reprodução, fatores fundamentais na seleção natural.

A importância do polegar na evolução humana

O desenvolvimento do cérebro e da habilidade manual são considerados marcos centrais na evolução humana. O polegar opositor, por exemplo, permitiu aos primeiros hominídeos segurar e utilizar ferramentas com mais eficiência, um diferencial importante para a espécie.

Grandes símios, como esses bonobos, têm cérebros grandes como os humanos e, portanto, podem aprender uma destreza muito habilidosa. Crédito: Sandra Heldstad
Grandes símios, como esses bonobos, têm cérebros grandes como os humanos e, portanto, podem aprender uma destreza muito habilidosa. Crédito: Sandra Heldstad

Embora outras espécies de primatas também tenham polegares parcialmente opositores, persistiam dúvidas sobre o papel do comprimento do polegar na evolução da manipulação de objetos. Para investigar essa questão, Baker e sua equipe analisaram o tamanho do cérebro e o comprimento do polegar em 94 espécies de primatas, incluindo cinco espécies de hominídeos antigos e lêmures.

Os resultados, publicados na revista Communications Biology, mostraram que humanos e outros hominídeos apresentam polegares significativamente mais longos do que o esperado com base nas proporções das mãos dos primatas em geral.

A relação entre polegar e neocórtex

Contudo, o achado mais surpreendente foi que, quanto mais longo o polegar em relação ao tamanho da mão, maior tendia a ser o tamanho do cérebro — especialmente o neocórtex, região ligada à cognição, ao planejamento de ações e à sensação. Isso indica que a relação entre polegar e cérebro não é exclusiva dos humanos, mas um padrão evolutivo compartilhado por diversos primatas.

“Não estamos dizendo que os humanos não têm polegares ou cérebros excepcionalmente grandes — eles têm. Mas quando consideramos a relação entre esses dois fatores, vemos que esse padrão é consistente em toda a ordem dos primatas”, afirma Baker.

A única exceção notável foi a espécie Australopithecus sediba, um hominídeo ancestral com polegar mais longo do que o esperado, mesmo levando em conta o tamanho do cérebro. Os cientistas acreditam que isso se deve ao estilo de vida desse ancestral, que dividia seu tempo entre o solo e as árvores.

Mais perguntas do que respostas

Apesar dos achados relevantes, os pesquisadores alertam que o comprimento do polegar, isoladamente, não é um indicador confiável de uso de ferramentas. A relação entre polegar e cérebro existe mesmo em espécies que não usam ferramentas, o que mostra que outros fatores anatômicos e neurológicos também desempenham papel importante.

Para o Dr. Fotios Alexandros Karakostis, especialista em antropologia biológica da Universidade de Tübingen (Alemanha), o estudo reforça a ideia de que mão e cérebro evoluíram em conjunto. No entanto, ele ressalta que compreender plenamente a destreza manual humana exige uma análise mais ampla.

“Será necessário integrar outros aspectos anatômicos da mão, simulações biomecânicas e mais pesquisas experimentais sobre os mecanismos neurais envolvidos na destreza e no uso de ferramentas”, conclui Karakostis.

Referências da notícia

The Guardian. Primates with longer thumbs tend to have bigger brains, research finds. 2025