El Niño interrompe o sumidouro de carbono de florestas sul-americanas: por que 2026 preocupa os cientistas

Um estudo que analisou 123 parcelas florestais na América do Sul tropical constatou que a absorção líquida de carbono cessou completamente durante o El Niño de 2015/2016. Com um novo evento de El Niño em curso, as florestas situadas nas bordas da Amazônia são as mais expostas.

Pesquisadores descobriram que, durante o evento de El Niño de 2015–2016, a floresta amazônica parou temporariamente de absorver carbono. Agora, eles alertam que as áreas mais secas e degradadas poderiam, mais uma vez, ser as mais vulneráveis.
Pesquisadores descobriram que, durante o evento de El Niño de 2015–2016, a floresta amazônica parou temporariamente de absorver carbono. Agora, eles alertam que as áreas mais secas e degradadas poderiam, mais uma vez, ser as mais vulneráveis.

A Floresta Amazônica armazena cerca de 123 bilhões de toneladas de carbono — mais do que qualquer outro ecossistema terrestre do planeta. Durante décadas, ela funcionou como um sumidouro líquido, o que significa que removia mais dióxido de carbono da atmosfera do que liberava. Esse serviço silencioso e gratuito tem atenuado parte do aquecimento global que, de outra forma, sentiríamos com muito mais intensidade.

Durante o histórico El Niño de 2015–2016, a floresta amazônica parou temporariamente de absorver carbono. Com um novo evento já em curso — e com probabilidade de se intensificar no final do ano —, cientistas alertam que as áreas mais secas e degradadas da Amazônia podem, mais uma vez, ser as mais vulneráveis.

No entanto, esse serviço não é garantido. Um estudo publicado na revista Nature Climate Change — liderado por Amy Bennett, pesquisadora da Universidade de Leeds, e co-assinado por mais de cem cientistas — constatou que, durante o evento extremo de El Niño de 2015–2016, o sumidouro de carbono da biomassa das florestas sul-americanas deixou de funcionar.

O balanço de carbono tornou-se estatisticamente indistinguível de zero: −0,02 ± 0,37 megagramas de carbono por hectare ao ano. Até então, essas mesmas florestas vinham armazenando cerca de um terço de tonelada de carbono por hectare anualmente.

A pergunta óbvia é por que isso volta a ganhar destaque agora, quase três anos após a publicação do estudo. A resposta está no Pacífico. Em 11 de junho de 2026, a NOAA (agência dos EUA) emitiu um alerta de El Niño: o fenômeno já está em curso — não se trata apenas de uma previsão.

Atualizações subsequentes do Centro de Previsão Climática indicam que ele se intensificará rumo ao final do ano, com cerca de 63% de chance de atingir o status de "muito forte". Em outras palavras, o experimento natural analisado pelos cientistas em 2015–2016 pode estar prestes a se repetir, e com maior intensidade.

Por que uma floresta para de absorver carbono

O mecanismo básico é mais simples do que parece. As árvores absorvem dióxido de carbono (CO2) por meio de poros em suas folhas, conhecidos como estômatos, e o convertem em biomassa via fotossíntese. Quando o ar fica excessivamente quente e seco, a planta fecha esses poros para evitar a perda de água. O problema é que, ao fechá-los, ela também interrompe seu próprio suprimento de combustível: sem a entrada de CO2, a fotossíntese desacelera e o crescimento para.

No entanto, o estudo mostrou que a história não termina aí, e esse é o ponto mais interessante do trabalho. Durante o evento de El Niño de 2015–2016, quando as temperaturas sobre o continente ficaram pelo menos um grau acima do normal, a mortalidade de árvores nas florestas tropicais da América do Sul subiu de 1,8% para 3% ao ano. Contudo, a média mascara o que é verdadeiramente significativo: entre as árvores de médio porte (com mais de 20 centímetros de diâmetro) e as de grande porte, a mortalidade praticamente dobrou.

Esse padrão constitui uma assinatura diagnóstica. Árvores grandes com madeira menos densa morreram em taxas muito mais elevadas do que árvores pequenas e aquelas com madeira dura, o que aponta fortemente para uma falha hidráulica, em vez de um processo lento de inanição decorrente do esgotamento de carbono.

Pesquisadores analisaram mais de meio milhão de árvores, abrangendo cerca de 4.000 espécies em seis países da América do Sul ao longo de mais de três décadas, e constataram que a vulnerabilidade estava estreitamente ligada às condições climáticas de referência de cada local. As florestas mais secas — situadas na periferia da Amazônia — foram as mais afetadas: nessas áreas, cada aumento de 0,5°C na temperatura traduziu-se, em média, em uma perda de 0,5% do carbono armazenado na biomassa aérea.

O que é necessário observar em 2026

A situação atual do Pacífico deixa pouca margem para ambiguidades. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa sobre Clima e Sociedade (IRI) da Universidade de Columbia, a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 subiu de +0,48°C no trimestre de março a maio para +0,94°C em maio de 2026, ao passo que a medição semanal referente a 17 de junho já havia atingido +1,7°C.

A maioria dos modelos situa o pico do fenômeno no trimestre de setembro a novembro de 2026, com a maior parte deles projetando que ele alcançará a categoria de "muito forte".

A isso se soma uma tendência subjacente que merece destaque: nos últimos 60 anos, houve o dobro de eventos de El Niño "muito fortes" em comparação com os 60 anos anteriores. Se eventos extremos se tornarem mais frequentes e intensos, o intervalo de tempo disponível para a floresta se recuperar entre eles diminui.

Os autores do estudo alertam que extremos climáticos podem já estar levando as florestas das bordas da Amazônia além de sua capacidade de adaptação. A conclusão desconfortável é que a adaptação à seca sazonal não é suficiente para protegê-las de um evento extremo.

No entanto, o próprio estudo conclui que as florestas tropicais sul-americanas intactas, consideradas em seu conjunto, não foram mais sensíveis ao El Niño extremo de 2015–2016 do que a eventos anteriores menos intensos, e que elas continuam sendo uma defesa fundamental contra as mudanças climáticas — desde que sejam protegidas.

A conclusão correta, portanto, não é que "a Amazônia parou de absorver carbono e nada pode ser feito". A conclusão é mais precisa e, em última análise, mais orientada para a ação: são as bordas de floresta degradadas e secas que sucumbem primeiro; por isso, manter a floresta intacta é mais importante hoje do que nunca.

Referência da notícia

Bennett, A. M. et al. (2023). Impact of the 2015–2016 El Niño on the carbon dynamics of South American tropical forests.