Desmatamento na Amazônia: chuva mudou de lugar ao longo de 20 anos em Rondônia; entenda
Observações de satélite mostram que o desmatamento altera o horário e o local das chuvas em Rondônia, favorecendo áreas abertas na estação seca e florestas a sotavento durante a monção, enquanto a precipitação diminui com o tempo.

O desmatamento não apenas reduz a umidade disponível na Amazônia: ele também pode mudar o lugar e o horário em que a chuva se forma. Uma análise de 20 anos de observações identificou respostas opostas entre as estações seca e chuvosa no sudoeste da floresta.
Publicado na Scientific Reports, o estudo examinou uma extensa área desmatada de Rondônia e seu entorno entre 1998 e 2018. Os resultados ajudam a explicar por que os modelos climáticos ainda divergem sobre onde a precipitação amazônica diminuirá mais com a retirada da vegetação.
Chuva avança sobre áreas desmatadas na estação seca
Os pesquisadores combinaram estimativas de precipitação do satélite CMORPH, com resolução de 8 quilômetros e intervalos de 30 minutos, dados do Recuperação Multissatélites Integradas para a GPM (IMERG) e temperaturas da superfície medidas pelo Espectrorradiômetro de Imagem de Resolução Moderada (MODIS).

Essa combinação permitiu observar não só acumulados, mas a evolução da precipitação ao longo de cada dia. Áreas com temperatura média superior a 30 °C foram classificadas como desmatadas, permitindo comparar seus ciclos diários com os das áreas florestadas.
Em setembro, quando a superfície estava mais quente e seca, a chuva atingiu seu máximo por volta das 17h e foi mais intensa no lado oeste da área desmatada, a sotavento.
- Em setembro, o máximo de chuva ocorreu mais tarde sobre a área desmatada.
- O solo mais quente favoreceu a convergência de ar e vapor d’água no fim da tarde.
- Ventos relativamente fracos mantiveram a convecção dentro da região desmatada.
- O aumento localizado não compensou a perda regional de precipitação.
Monção desloca a precipitação para a floresta
Em fevereiro, durante a estação chuvosa, o padrão espacial se inverteu. A chuva máxima ocorreu aproximadamente às 16h e se concentrou na floresta situada a sotavento da clareira. A taxa horária ficou próxima de 0,52 mm tanto sobre a floresta quanto sobre a área aberta, mas os mapas revelaram maior precipitação nas áreas florestadas ao sul.

Segundo os autores, o aquecimento da superfície desmatada ainda favorece a subida do ar. Entretanto, os ventos mais fortes da monção transportam essa umidade para a floresta vizinha, onde há mais vapor disponível para sustentar tempestades.
Dados da reanálise ERA5 mostraram convergência de umidade e movimento ascendente compatíveis com esse mecanismo.
Queda regional exige cautela e novas observações
As séries indicaram redução significativa da chuva entre 1998 e 2018. As tendências lineares foram de −0,11 mm por dia a cada ano na estação chuvosa, −0,028 mm na seca e −0,067 mm no conjunto anual.

Os valores foram estatisticamente significativos, embora uma tendência linear de duas décadas não descreva sozinha toda a variabilidade climática. Embora áreas recém-desmatadas tenham registrado pequeno aumento local na seca, a disponibilidade regional de umidade diminuiu.
O trabalho é observacional e não isola o desmatamento de fatores como temperatura do Atlântico, secas naturais e relevo. Além disso, analisou uma única região, empregou temperatura como indicador de cobertura do solo e encontrou diferenças entre os produtos de satélite.
Referência da notícia
Ukaonu, C., Lee, JE. & Valentine, S. (2026). Contrasting seasonal rainfall responses to deforestation in the Southwestern Amazon Basin.