Como os satélites e os oceanos confirmam a origem humana do aquecimento global?

O cientista climático Ed Hawkins, da Universidade de Reading, na Inglaterra, criador das famosas listras de aquecimento global, mostra como satélites e oceanos evidenciam uma característica inegável: o aquecimento global é de origem humana.

A ciência revela evidências convergentes que comprovam a origem humana do aquecimento global.
A ciência revela evidências convergentes que comprovam a origem humana do aquecimento global.

Satélites monitoram incansavelmente nosso planeta desde o final da década de 1970. Ed Hawkins, climatologista da Universidade de Reading, explica que esses instrumentos medem um elemento fundamental: a quantidade de calor que entra e sai do sistema climático da Terra.

À medida que as concentrações de gases de efeito estufa (GEEs) aumentam, cada vez menos calor escapa para o espaço. Isso cria um desequilíbrio energético; o planeta está aquecendo.

Essas observações independentes corroboram as medições terrestres realizadas entre 1850 e 2025. Para destacar isso, Ed Hawkins criou as famosas faixas de aquecimento. Cada faixa representa um ano, do azul (anos frios) ao vermelho escuro (anos quentes). Mais de um bilhão de medições de temperatura mostram que os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados.

Troposfera e estratosfera: um sinal climático revelador

Os satélites também nos permitem observar as diferentes camadas da atmosfera. Na troposfera, a camada onde vivemos e onde os aviões voam, as faixas de aquecimento mostram um aquecimento rápido, muito semelhante ao medido na superfície. Essa consistência confirma que o aumento da temperatura não é um artefato de medição, mas uma realidade física global.

Mais acima, na estratosfera, o sinal é radicalmente diferente: é de resfriamento. Esse contraste é fundamental. Se o aquecimento fosse devido ao aumento da atividade solar, todas as camadas da atmosfera estariam aquecendo. Mas não é esse o caso.

Essa combinação — uma troposfera em aquecimento e uma estratosfera em resfriamento — constitui um sinal climático tipicamente humano, previsto já na década de 1960, muito antes de ser observado.

A destruição da camada de ozônio pelos CFCs (clorofluorcarbonetos) acentua ainda mais este resfriamento estratosférico.

Os oceanos, guardiões silenciosos do calor

Abaixo da superfície do oceano, os dados contam a mesma história. Faixas de aquecimento aplicadas em diferentes profundidades mostram que o aquecimento começa na superfície e depois progride em direção ao fundo do mar, um padrão consistente com o calor atmosférico. Os oceanos não são meros espectadores: eles absorvem aproximadamente 90% do excesso de calor acumulado pelo planeta.

Evolução da temperatura global, da alta atmosfera até ao fundo do oceano. (c) Ed Hawkins/Universidade de Reading.
Evolução da temperatura global, da alta atmosfera até ao fundo do oceano. (c) Ed Hawkins/Universidade de Reading.

Essa absorção funciona como um "amortecedor climático". Sem ela, o aumento da temperatura do ar seria muito mais drástico. Mas esse "serviço" tem um custo: a água quente se expande, contribuindo para a elevação do nível do mar, agravada pelo influxo de água doce proveniente do derretimento de geleiras e calotas polares.

Uma certeza científica

Em conjunto, esses sinais — provenientes de satélites, da atmosfera e dos oceanos — formam uma narrativa notavelmente coerente. A física do efeito estufa é conhecida desde a década de 1850. Hoje, as observações confirmam que a queima de combustíveis fósseis é a principal causa do aquecimento atual. As "assinaturas" são múltiplas, independentes e convergem entre si.

Segundo os pesquisadores, uma redução rápida das emissões pode estabilizar as temperaturas globais. Por outro lado, cada atraso mergulha o planeta em riscos mais profundos e, por vezes, irreversíveis. A ciência não promete soluções milagrosas, mas sim nos lembra, de forma clara e séria, que o futuro do clima ainda depende de nossas decisões coletivas.

Referência da notícia

Climate ‘fingerprints’ mark human activity from the top of the atmosphere to the bottom of the ocean. 03 de fevereiro, 2026. Ed Hawkins e Ric Williams.