Como a Amazônia fabrica sua própria chuva? Ciência desvendou esse mistério

Novo estudo revela que árvores usam água rasa na seca para manter o ciclo da chuva, reforçando a importância da floresta para o clima e a agricultura nacional.

Vista do rio Xingu mostra uma propriedade usada para criação de gado (à esquerda) e uma área preservada da floresta amazônica, na Terra Indígena Koatinemo, no estado do Pará Crédito: Carlos FABAL/AFP
Vista do rio Xingu mostra uma propriedade usada para criação de gado (à esquerda) e uma área preservada da floresta amazônica, na Terra Indígena Koatinemo, no estado do Pará Crédito: Carlos FABAL/AFP

Um novo estudo realizado na Floresta Nacional do Tapajós, no Pará, revela um segredo vital da Amazônia: durante a estação seca, a maior parte da água que as árvores usam para transpirar — processo que libera vapor e forma nuvens — vem das camadas mais rasas do solo. Isso contraria a ideia de que, em tempos de pouca chuva, as raízes buscam água apenas em profundidades maiores.

A Amazônia, maior floresta tropical do mundo, é fundamental para o ciclo da água no Brasil. Através dos chamados “rios voadores” — correntes de vapor atmosférico — a umidade da floresta é transportada por milhares de quilômetros, gerando chuva em várias regiões do país, inclusive onde está o principal polo agrícola nacional.

Grande parte dessa umidade é resultado da transpiração das árvores: elas puxam a água do solo, liberam-na pelas folhas e alimentam as chuvas locais e distantes. Durante a seca, cerca de 70% da chuva que cai sobre a floresta é produzida por esse ciclo.

Estudo revela uso de água superficial na seca

A pesquisa, publicada na revista científica PNAS, analisou duas regiões contrastantes da Floresta Nacional do Tapajós: o platô, onde o lençol freático está a cerca de 40 metros de profundidade, e o baixio, mais próximo ao leito de igarapés, com água subterrânea a até 30 metros.

Os resultados surpreenderam os cientistas. Em um ano sem extremos climáticos, 69% da água usada pelas árvores para transpirar no platô e 46% no baixio veio dos primeiros 50 centímetros do solo. Ou seja, a floresta recicla rapidamente a própria chuva da estação seca: a água cai, infiltra-se no solo raso, é absorvida pelas raízes e retorna como vapor para a atmosfera.

Esse processo é essencial para manter o ciclo hidrológico da floresta, sobretudo no momento em que há menos precipitação. A capacidade da Amazônia de produzir chuva mesmo na seca é o que garante a transição entre estações e sustenta a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos da região.

Diversidade de árvores é chave do ciclo hídrico

A pesquisa também destaca que diferentes espécies de árvores têm estratégias variadas para acessar a água. A chave está na chamada resistência ao embolismo, um traço hidráulico que determina a habilidade de uma árvore em extrair água de solos mais secos.

Nuvem de chuva sobre trecho de floresta no estado do Amazonas. Crédito: Rogerio Assis
Nuvem de chuva sobre trecho de floresta no estado do Amazonas. Crédito: Rogerio Assis

Espécies com maior resistência conseguem puxar água mesmo de solos superficiais secos, enquanto outras, mais vulneráveis, dependem de raízes mais profundas. Essa diversidade funcional ajuda a manter o equilíbrio do sistema, garantindo que a floresta como um todo consiga continuar reciclando água mesmo em condições adversas.

Além disso, a presença de espécies adaptadas a usar água rasa reforça o papel da Amazônia como uma “fábrica de chuvas”, crucial para as regiões agrícolas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil.

Desmatamento ameaça ciclo da água

O estudo reforça uma mensagem clara: sem floresta, não há chuva. E sem chuva, não há floresta. A Amazônia depende da própria capacidade de reciclar a água para sobreviver. Interromper esse ciclo, seja pelo desmatamento ou pela degradação do solo, pode levar a um colapso do sistema hidrológico.

As consequências ultrapassam os limites da floresta. Comunidades indígenas e tradicionais, como os Mundurukus, vivem diretamente dos recursos da Amazônia. Mas todo o país depende da chuva que ela ajuda a produzir — especialmente o agronegócio, que sustenta grande parte da economia nacional.

O alerta se torna ainda mais urgente diante da aprovação de projetos de lei que facilitam o desmatamento, como o chamado "PL da Devastação". A equação é simples: menos árvores, menos chuva, menos floresta — e maior risco climático, social e econômico.

Referências da notícia

G1. Como a floresta fabrica a própria chuva? Pesquisa desvenda segredo da Amazônia. 2025