Cientistas brasileiros desenvolvem combustíveis sustentáveis a partir do CO₂

Pesquisadores brasileiros criam tecnologias para transformar dióxido de carbono em metanol, gasolina e diesel renováveis, oferecendo alternativas sustentáveis para os setores de transporte marítimo, terrestre e aéreo.

Metanol produzido no Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (SP). Crédito: Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP
Metanol produzido no Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (SP). Crédito: Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

O dióxido de carbono (CO₂), principal responsável pelo efeito estufa e pelas mudanças climáticas, agora está no centro de uma revolução energética no Brasil. Dois projetos nacionais visam transformar esse gás poluente em combustíveis sustentáveis, com potencial para abastecer navios, carros e aviões. As iniciativas colocam o país na vanguarda da produção de e-combustíveis – metanol, gasolina e diesel feitos a partir de CO₂ e fontes renováveis de energia.

No Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP), pesquisadores desenvolvem um processo para produzir e-metanol, versão sustentável do metanol, a partir do CO₂ capturado em usinas de etanol. O projeto é conduzido dentro do Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI), parceria entre a FAPESP e a Shell. A proposta é empregar o combustível renovável principalmente na navegação, setor que busca alternativas para sua descarbonização.

Já a empresa Repsol Sinopec Brasil, junto com a startup Hytron, o Senai-CETIQT e a USP, aposta na produção de gasolina e diesel renováveis. Também com suporte do RCGI, a tecnologia utiliza CO₂ e hidrogênio obtido via eletrólise da água, com energia renovável, garantindo um ciclo fechado de carbono e mirando o uso automotivo, aéreo e marítimo.

Cana-de-açúcar como aliada da inovação

No caso do e-metanol, o Brasil apresenta uma vantagem competitiva. As usinas de etanol produzem cerca de 28 milhões de toneladas de CO₂ por ano, um volume suficiente para atender mais de um terço da produção global atual de metanol. A biomassa da cana-de-açúcar, como o bagaço, também oferece eletricidade e vapor – essenciais no processo de produção de hidrogênio e na conversão do CO₂ em combustível.

Um dos grandes avanços do projeto da USP foi o desenvolvimento de um catalisador à base de óxidos de titânio e de rênio, criado pela pesquisadora Maitê Lippel Gothe. Ele mostrou alto desempenho em laboratório, com seletividade de 98% para o metanol. A próxima etapa será a construção de uma planta-piloto até 2026, capaz de produzir até 3 litros de e-metanol por dia. A meta futura é uma planta industrial que produza 100 mil toneladas por ano.

A iniciativa da Repsol também conta com uma planta-piloto, inaugurada em Campinas em março de 2025. O projeto, batizado de CO2CHEM, tem capacidade inicial de até 20 litros de combustível por dia, consumindo até 1 tonelada de CO₂. A fonte do gás poderá ser o ar atmosférico, utilizando a tecnologia Direct Air Capture (DAC), pioneiramente testada no Brasil com apoio da PUCRS.

Progresso global e desafios locais

A produção de e-metanol já se tornou realidade em países como a Dinamarca. Em maio de 2025, a primeira fábrica comercial do mundo entrou em operação em Kasso, com capacidade para 42 milhões de toneladas por ano. A unidade, que utiliza energia renovável e CO₂ de usinas de biogás, abastece a frota da gigante Maersk, cuja meta é reduzir em até 65% as emissões de gases de efeito estufa de suas embarcações.

Fábrica da European Energy, na Dinamarca, pioneira na produção de e-metanol no mundo. Crédito: European Energy
Fábrica da European Energy, na Dinamarca, pioneira na produção de e-metanol no mundo. Crédito: European Energy

No Brasil, além dos projetos do IQ-USP e da Repsol, outras iniciativas estão em fase inicial. A Petrobras firmou um acordo com a European Energy para instalar uma fábrica de e-metanol em Pernambuco. A Braskem colabora com a Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, para desenvolver tecnologia similar. A chilena HIF Global também planeja uma planta no Porto do Açu (RJ), mas os detalhes ainda não foram divulgados.

Apesar do avanço tecnológico, os custos de produção ainda são um desafio. O e-metanol custa cerca de US$ 1.300 por tonelada, enquanto o bunker fóssil usado em navios custa em torno de US$ 300. Porém, a tendência é de queda nos preços com o aumento da escala de produção e o avanço tecnológico.

Rumo à descarbonização dos transportes

O setor marítimo, responsável por 3% das emissões globais de gases de efeito estufa, enfrenta pressões regulatórias. Um acordo firmado em 2025 pela Organização Marítima Internacional (IMO) estipula metas progressivas de redução das emissões até 2050. O descumprimento pode acarretar multas superiores a US$ 1 mil por tonelada de combustível fóssil excedente.

Nesse cenário, o Brasil busca se posicionar como um dos líderes mundiais na produção de combustíveis sintéticos sustentáveis. A combinação de fontes renováveis, conhecimento técnico e capacidade industrial coloca o país em uma trajetória promissora rumo à economia de baixo carbono, com potencial de impacto global.

Referências da notícia

Revista Fapesp. Cientistas brasileiros transformam CO2 em combustível para navios, carros e caminhões. 2025