Áreas úmidas do Cerrado armazenam até seis vezes mais carbono que as florestas da Amazônia

Estudo revela que áreas úmidas do Cerrado acumulam carbono por milênios, superando florestas amazônicas, e alerta para riscos ambientais causados por mudanças no uso do solo e clima.

Imortalizadas no livro Grande Sertão: Veredas, as veredas são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas do Cerrado. Crédito: André Dib
Imortalizadas no livro Grande Sertão: Veredas, as veredas são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas do Cerrado. Crédito: André Dib

As áreas úmidas do Cerrado brasileiro, como campos alagados e veredas, podem armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare — cerca de seis vezes mais do que a biomassa média de florestas típicas da Amazônia. A descoberta reforça a importância desses ecossistemas pouco estudados no equilíbrio climático global. Segundo pesquisadores, esse carbono permanece estocado há milhares de anos, com média de 11 mil anos e registros que chegam a até 20 mil anos.

O acúmulo ocorre devido às condições específicas desses ambientes, marcados por solos saturados de água e baixa presença de oxigênio. Esse cenário reduz a decomposição da matéria orgânica, favorecendo o armazenamento de carbono ao longo de milênios. O estudo que traz essas conclusões foi publicado na revista científica New Phytologist e liderado por cientistas do Instituto de Biologia da Unicamp.

Além de quantificar o carbono armazenado, os pesquisadores também buscaram dimensionar a extensão dessas áreas no bioma. Utilizando técnicas de sensoriamento remoto combinadas com aprendizado de máquina, foi possível estimar que essas regiões ocupam cerca de 167 mil km², uma área seis vezes maior do que se imaginava anteriormente.

Cerrado: biodiversidade e importância hídrica

O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul e reconhecido como a savana mais biodiversa do mundo. Conhecido como “berço das águas”, ele desempenha papel essencial no abastecimento hídrico do Brasil, contribuindo com dois terços das principais bacias hidrográficas, especialmente nas regiões Sul e Sudeste. Nessas áreas úmidas também estão os chamados olhos d’água, protegidos pela legislação ambiental como Áreas de Preservação Permanente.

As veredas — imortalizadas na obra Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa — são um tipo de turfeira, ecossistemas alagados que, além de armazenarem carbono, também emitem metano. Essas emissões são mais intensas em áreas permanentemente inundadas e sob temperaturas elevadas, o que adiciona complexidade ao papel climático dessas regiões.

Apesar de sua relevância, essas formações são frequentemente negligenciadas. Muitas vezes pouco visíveis na paisagem, desempenham funções ecológicas fundamentais, como a regulação hídrica e a manutenção de rios e nascentes.

Pressões ambientais e riscos de degradação

Os pesquisadores alertam que esses ecossistemas são altamente vulneráveis a mudanças no regime hídrico. A expansão agrícola, o desmatamento, a drenagem de áreas úmidas e o uso intensivo de água para irrigação estão entre os principais fatores de risco. Mesmo quando preservadas em fragmentos, alterações no entorno podem reduzir o nível do lençol freático, transformando essas áreas em fontes de emissão de carbono.

Cerrado sofre com as mudanças climáticas e avanço da frente agrícola. Crédito: Divulgação NeoMondo
Cerrado sofre com as mudanças climáticas e avanço da frente agrícola. Crédito: Divulgação NeoMondo

Diferentemente das florestas, cuja recuperação pode ocorrer em algumas décadas, o carbono armazenado nessas áreas úmidas leva milhares de anos para se acumular. Isso significa que sua perda representa um impacto praticamente irreversível no curto prazo. Especialistas destacam que restaurar esse tipo de ambiente está além da escala de tempo humana.

Dados recentes mostram que, apesar de uma leve redução, o desmatamento no Cerrado segue elevado. Entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, foram registrados 1.905 km² sob alerta de desmate, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Além disso, quase metade do bioma já é ocupada por atividades humanas, principalmente pastagens e agricultura.

Pesquisa de campo e avanços científicos

O estudo também se destaca pelo uso inovador de amostras de solo profundo, com até quatro metros de profundidade, coletadas em áreas do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. A análise permitiu uma avaliação mais precisa do carbono armazenado nesses ambientes.

Os cientistas utilizaram equipamentos específicos para medir gases como dióxido de carbono e metano diretamente no solo. Para determinar a idade do carbono, contaram com a colaboração de pesquisadores do Instituto Max Planck, na Alemanha, além de especialistas em sensoriamento remoto.

Os resultados indicaram ainda que o carbono dessas áreas apresenta baixa estabilidade, especialmente durante a estação seca, quando cerca de 70% das emissões anuais de CO₂ e CH₄ ocorrem. Isso se deve, em parte, à vegetação predominante, composta por gramíneas de decomposição mais rápida.

Diante desse cenário, os autores reforçam a necessidade de ampliar a proteção das áreas úmidas do Cerrado e aprofundar os estudos sobre seu funcionamento. A preservação desses ecossistemas é apontada como essencial não apenas para o clima, mas também para a segurança hídrica e a manutenção da biodiversidade brasileira.

Referências da notícia

NeoMondo. Cerrado: áreas úmidas armazenam mais carbono do que florestas na Amazônia. 2026