Fogo no Cerrado: 30 mil anos de indícios que ajudam a prevenir os incêndios de hoje

Carvão preservado em lagos e veredas revela quando o Cerrado queimou nos últimos 30 mil anos. O registro mostra a força do clima e, mais tarde, da ação humana, e ajuda a ajustar prevenção para o futuro.

Cerrado brasileiro: bioma savânico moldado pelo fogo natural e pela ação humana ao longo de milhares de anos.
Cerrado brasileiro: bioma savânico moldado pelo fogo natural e pela ação humana ao longo de milhares de anos.

O Cerrado, “berço das águas” do Brasil, é também um bioma onde o fogo sempre existiu. A diferença é que, quando a queimada sai do ritmo natural e vira incêndio fora de controle, o prejuízo aparece em cadeia: fumaça, perda de biodiversidade, erosão, impacto nos rios e risco para cidades, estradas e lavouras.

Um estudo recente reconstruiu cerca de 30 mil anos de história do fogo no Cerrado usando um método curioso: ler, em sedimentos de lagos e veredas, o carvão deixado por queimadas antigas.

Ao comparar diferentes regiões, os cientistas mostram que o fogo aumentou e diminuiu várias vezes, e que, no período mais recente, a ação humana passou a pesar muito mais.

Um arquivo de fogo no fundo d’água

Depois de uma queimada, fragmentos microscópicos de carvão podem ser levados pelo vento ou pela chuva e acabam depositados em ambientes alagados. Com o tempo, esse material fica “arquivado” em camadas, como páginas de um livro. Quanto mais carvão em uma camada, maior a atividade de fogo naquele intervalo; e partículas maiores costumam indicar incêndios mais próximos do local.

Gramíneas e árvores espaçadas influenciam a propagação e a intensidade das queimadas.
Gramíneas e árvores espaçadas influenciam a propagação e a intensidade das queimadas.

Ao reunir doze registros distribuídos por diferentes áreas do Cerrado, o estudo desenhou uma linha do tempo ampla. No passado mais frio, como durante a última grande fase glacial, o fogo tende a aparecer com menor intensidade. Já ao longo do Holoceno (os últimos milhares de anos), quando o clima se aproximou do atual, há sinais de aumento.

Nos últimos milênios, o padrão fica mais irregular, sugerindo que fatores locais, e, sobretudo, pessoas e uso do solo, passaram a influenciar mais o “quando” e o “onde” das queimadas.

O que faz o fogo subir ou descer


Fogo precisa de três coisas: uma estação seca que deixe a vegetação inflamável, combustível disponível e uma ignição. No Cerrado, a ignição pode vir de raios, mas também de queimadas para manejo, limpeza de área, abertura de pasto ou de acidentes.

O estudo liga as mudanças de longo prazo a variações de clima, à produtividade da vegetação e à presença de gramíneas, que funcionam como pavio e espalham chamas rápidas.

Em linguagem simples, os principais controles do fogo no Cerrado podem ser entendidos assim:
Estação seca mais longa e quente: aumenta a chance de fogo escapar do controle.
• Mais gramíneas: cria “tapetes” de combustível que aceleram a propagação.
Chuvas e umidade do solo: determinam quanto combustível fica realmente disponível.
• Raios em épocas específicas: acionam incêndios naturais em anos favoráveis.
Ocupação humana e uso do solo: multiplicam ignições e mudam o mosaico da paisagem.
• Fragmentação e estradas: podem tanto conter quanto facilitar a disseminação do fogo.

Lições para o Brasil no século XXI

o Cerrado é resiliente, mas o contexto atual é diferente do passado. O aquecimento global, os extremos de seca, a expansão agropecuária e a proximidade de áreas urbanas criam condições para incêndios mais frequentes e mais severos.

Isso afeta a segurança hídrica (nascentes e recarga), a saúde (fumaça), a economia local e até a reputação do país em cadeias produtivas que exigem rastreabilidade ambiental.

Na prática, a história longa do fogo aponta para um manejo mais inteligente e regionalizado. Em algumas áreas, reduzir combustível com queimas prescritas bem planejadas pode evitar megaincêndios; em outras, a prioridade é reduzir ignições e proteger fragmentos sensíveis.

O desafio é coordenar prevenção, fiscalização e resposta rápida, sem ignorar saberes tradicionais e a realidade do campo. A oportunidade é usar ciência, monitoramento por satélite e calendário climático para antecipar o risco e agir antes do pico da estiagem, quando cada faísca vira ameaça.

Referência da notícia

30,000 years of fire history in the Cerrado. 7 de fevereiro, 2026. Ledru, MP., Franco Cassino, R., Escobar-Torrez, K. et al.