O tempo passa mais rápido em Marte do que na Terra? Físicos mostram que os segundos são diferentes
Um novo estudo revela que os relógios em Marte funcionam mais rápido do que na Terra. A diferença, embora mínima, será crucial para a navegação, as comunicações e a exploração futura.

O tempo não flui da mesma maneira em todos os cantos do sistema solar. Embora à primeira vista um segundo pareça uma unidade de tempo universal, a física demonstrou que não é. Agora, pela primeira vez, foi determinado um valor exato para a passagem do tempo em Marte em comparação com a Terra.
Uma equipe de físicos do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA (NIST, em inglês) realizou o cálculo mais preciso até o momento da taxa de passagem do tempo na superfície de Marte. O resultado, além de ser cientificamente fascinante, será essencial para que futuras missões, tanto tripuladas quanto robóticas, operem com extrema precisão.
O tempo em Marte não passa da mesma forma que na Terra
Segundo o estudo, um relógio em Marte adianta, em média, 477 microssegundos por dia terrestre em comparação com um relógio idêntico na Terra. Essa diferença é ínfima, mas cumulativa. Ao longo de dias, semanas e meses, a discrepância torna-se significativa para qualquer sistema que dependa de sincronização precisa.
La diferencia entre el tiempo de la Tierra y Marte aportada por un amable compañero en esta red https://t.co/XINBFt2adF
— Natalia Vartan (@NataliaVartan) June 29, 2025
Além disso, esse avanço não é fixo. Ao longo de um ano marciano, ele pode flutuar em até 226 microssegundos, devido à forma como Marte se move ao redor do Sol e às forças gravitacionais que o afetam. Portanto, não se trata simplesmente de uma correção constante.
Os pesquisadores explicam que um relógio atômico funcionaria normalmente na superfície do planeta vermelho. O problema surge ao compará-lo com um na Terra: seus tempos começariam a divergir quase imediatamente. A causa não é uma falha técnica, mas uma consequência direta da física fundamental.
Relatividade, gravidade e relógios em Marte
A explicação reside na teoria da relatividade de Einstein. A passagem do tempo depende do campo gravitacional e do movimento. Em áreas com menor gravidade, como Marte, o tempo passa ligeiramente mais rápido do que em outros planetas com maior massa, como a Terra.
Para obter um valor de referência, a equipe do NIST definiu um ponto específico na superfície marciana, equivalente ao nível do mar na linha do Equador, na Terra. A partir daí, eles estimaram a gravidade local, que é aproximadamente cinco vezes menor que a da Terra.

O cálculo não se limitou ao planeta vermelho. Ele também incorporou a influência do Sol, que é dominante no sistema, e as perturbações gravitacionais da Terra, da Lua, de Júpiter e de Saturno. Esses corpos alteram a órbita mais excêntrica de Marte e geram variações adicionais na velocidade de seus relógios.
Na Lua, por exemplo, a diferença de tempo é muito mais estável: cerca de 56 microssegundos por dia em relação à Terra. Marte é um caso mais complexo. “O mesmo não acontece em Marte. Sua distância do Sol e sua órbita excêntrica amplificam as variações de tempo. Um problema de três corpos já é extremamente complicado; aqui estamos lidando com quatro: o Sol, a Terra, a Lua e Marte”, explicou Bijunath R. Patla, físico teórico especializado em relatividade geral.
Comunicação e navegação: por que essa lacuna é importante
Pode parecer surpreendente que algumas centenas de milionésimos de segundo possam ter tamanha importância prática. No entanto, os sistemas de comunicação modernos dependem de uma sincronização extrema. As atuais redes 5G já exigem precisão da ordem de um décimo de microssegundo. No caso de Marte, o desafio é ainda maior.

Atualmente, um sinal leva entre quatro e mais de vinte e quatro minutos para viajar entre os dois planetas, dependendo de suas posições relativas. Ter um intervalo de tempo comum permitiria redes interplanetárias muito mais coordenadas. “Se a sincronização for alcançada, seria quase como uma comunicação em tempo real, sem perda de informação. Não haveria necessidade de esperar para ver o que acontece”, destacou Patla.
Embora essas infraestruturas ainda estejam longe de se concretizar, os autores do estudo do NIST defendem a importância de antecipá-las. Neil Ashby, coautor do estudo com Patla, enfatiza que estudar essas discrepâncias agora evitará problemas no futuro. "Podem passar décadas até que a superfície de Marte esteja coberta com as marcas de veículos exploradores, mas é importante começar agora a estudar os desafios associados à criação de sistemas de navegação em outros planetas e luas", afirmou.
O trabalho também amplia os testes experimentais da relatividade para além da Terra. "Pela primeira vez, sabemos o que está acontecendo com o tempo em Marte. Ninguém sabia disso antes. Isso aprimora nossa compreensão da própria teoria, de como os relógios funcionam e da relatividade", concluiu Patla.
Referência da notícia
A Comparative Study of Time on Mars with Lunar and Terrestrial Clocks. 01 de dezembro, 2025. Neil Ashby e Bijunath R. Patla.