Inteligência Artificial dá salto histórico e se aproxima de resolver o mistério dos neutrinos

O sistema explora automaticamente milhares de possibilidades na física de partículas em busca da origem da massa dos neutrinos.

Um novo estudo usa inteligência artificial para investigar um dos maiores mistérios da física: a origem da massa dos neutrinos. Crédito: CERN
Um novo estudo usa inteligência artificial para investigar um dos maiores mistérios da física: a origem da massa dos neutrinos. Crédito: CERN

Os neutrinos estão entre as partículas fundamentais mais leves conhecidas e interagem pouco com a matéria. Durante décadas, o Modelo Padrão da física de partículas considerou que essas partículas não possuíam massa, assim como os fótons. Com isso, a ideia de que os neutrinos poderiam viajar à velocidade da luz se popularizou.

No entanto, a descoberta do fenômeno de oscilação de neutrinos demonstrou que essas partículas podem mudar de um tipo para outro durante sua propagação. Esse processo só é possível se os neutrinos possuírem massa diferente de zero e, com isso, os neutrinos não poderiam ter uma velocidade igual à da luz.

Pesquisadores desenvolveram um sistema capaz de analisar diferentes propriedades de partículas hipotéticas e gerar modelos teóricos para explicar o comportamento e a massa dos neutrinos. A ferramenta permite explorar regiões do espaço de modelos mais rapidamente do que seria possível manualmente.

Neutrinos

Os neutrinos são partículas elementares eletricamente neutras que interagem com a matéria apenas por meio da força fraca e da gravidade. Eles foram propostos em 1930 por Wolfgang Pauli para explicar a conservação de energia no decaimento beta e tiveram sua existência confirmada experimentalmente em 1956 por Clyde Cowan e Frederick Reines.

Após décadas de experimentos, hoje sabemos que trilhões de neutrinos atravessam o corpo humano a cada segundo sem produzir efeitos perceptíveis por interagirem de forma fraca com a matéria.

Durante muito tempo, o Modelo Padrão assumiu que os neutrinos eram partículas sem massa, assim como os fótons. Essa hipótese mudou no final da década de 1990, quando experimentos observaram o fenômeno de oscilação de neutrinos, no qual eles mudam de um tipo para outro durante a propagação.

Mistério da massa dos neutrinos

Antes de revelar que os neutrinos possuem massa, a física de partículas já descrevia com sucesso quase todas as partículas fundamentais por meio do Modelo Padrão. No entanto, esse modelo prevê neutrinos sem massa, diferente das evidências experimentais obtidas a partir das oscilações de neutrinos.

Mesmo após décadas de pesquisas, os neutrinos ainda desafiam o Modelo Padrão, que não explica a origem de suas minúsculas massas. Crédito: SBF
Mesmo após décadas de pesquisas, os neutrinos ainda desafiam o Modelo Padrão, que não explica a origem de suas minúsculas massas. Crédito: SBF

Isso indica que existe algum mecanismo físico ainda desconhecido responsável por gerar essas massas extremamente pequenas. Diversas hipóteses foram propostas para explicar a origem da massa dos neutrinos, incluindo a existência de novas partículas ainda não observadas experimentalmente.

AMBer

Para acelerar a busca pela origem da massa dos neutrinos, pesquisadores desenvolveram o Autonomous Model Builder (AMBer), um sistema baseado em aprendizado por reforço. O AMBer aprende por tentativa e erro, avaliando continuamente a qualidade dos modelos teóricos que constrói.

O AMBer utiliza aprendizado por reforço para explorar automaticamente novos modelos capazes de explicar a massa dos neutrinos. Crédito: Baretz et al. 2026
O AMBer utiliza aprendizado por reforço para explorar automaticamente novos modelos capazes de explicar a massa dos neutrinos. Crédito: Baretz et al. 2026

O AMBer constrói modelos de física de partículas escolhendo grupos de simetria, definindo quais partículas devem compor cada teoria. Cada modelo é então comparado com resultados experimentais e avaliado. O sistema identificou novos candidatos em estruturas matemáticas ainda pouco exploradas.

Aprendizado por reforço

O aprendizado por reforço, que foi usado nesse estudo, é uma técnica de inteligência artificial na qual um agente aprende a tomar decisões por meio da interação com um ambiente. O algoritmo realiza ações, observa seus resultados e recebe recompensas ou penalidades conforme seu desempenho.

O objetivo é descobrir, ao longo de muitas tentativas, a sequência de decisões que maximiza a recompensa acumulada. Essa abordagem é útil em problemas com um grande número de possibilidades, nos quais não existe uma solução conhecida. Com o tempo, o agente melhora progressivamente seu desempenho.

Referência da notícia

Baretz et al. (2026). Towards AI-assisted neutrino flavor theory design.